Geografia da Amizade

Geografia da Amizade

Amizade...Amor:
Uma gota suave que tomba
No cálice da vida
Para diminuir seu amargor...
Amizade é um rasto de Deus
Nas praias dos homens;
Um lampejo do eterno
Riscando as trevas do tempo.
Sem o calor humano do amigo
A vida seria um deserto.
Amigo é alguém sempre perto,
Alguém presente,
Mesmo, quando longe, geograficamente.
Amigo é uma Segunda eucaristia,
Um Deus-conosco, bem gente,
Não em fragmentos de pão,
Mas no mistério de dois corações
Permutando sintonia
Num dueto de gratidão.
Na geografia
da amizade,
Do amor,
Até hoje não descobri
Se o amigo é luz, estrela,
Ou perfume de flor.
Sei apenas, com precisão,
Que ele torna mais rica e mais bela
A vida se faz canção!

"Roque Schneider"


Quem sou eu

Salvador, Bahia, Brazil
Especialista em Turismo e Hospitalidade, Geógrafa, soteropolitana, professora.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A GUERRA FRIA

2.1- A Guerra Fria ou Terceira Guerra Mundial
A Segunda Guerra Mundial mal terminara quando a humanidade mergulhou no que se pode encarar, razoavelmente, como uma Terceira Guerra Mundial, embora uma guerra muito peculiar. [...] Gerações inteiras se criaram à sombra de batalhas nucleares globais que, acreditava-se firmemente, podiam estourar a qualquer momento e devastar a humanidade. [...] À medida que o tempo passava, mais e mais coisas podiam dar errado, política e tecnologicamente, num confronto nuclear permanente baseado na suposição de que só o medo da "destruição mútua inevitável" (adequadamente expresso na sigla MAD, das iniciais da expressão em inglês — mutually assured destruction) impediria um lado ou outro de dar o sempre pronto sinal para o planejado suicídio da civilização. Não aconteceu, mas por cerca de quarenta anos pareceu uma possibilidade diária.
A peculiaridade da Guerra Fria era a de que, em termos objetivos, não existia perigo iminente de guerra mundial. Mais que isso: apesar da retórica apocalíptica de ambos os lados, mas sobretudo do lado americano, os governos das duas superpotências aceitaram a distribuição global de forças no fim da Segunda Guerra Mundial, que equivalia a um equilíbrio de poder desigual mas não contestado em sua essência. A URSS controlava uma parte do globo, ou sobre ela exercia predominante influência — a zona ocupada pelo Exército Vermelho e/ou outras Forças Armadas comunistas no término da guerra — e não tentava ampliá-la com o uso de força militar. Os EUA exerciam controle e predominância sobre o resto do mundo capitalista, além do hemisfério norte e oceanos, assumindo o que restava da velha hegemonia imperial das antigas potências coloniais. Em troca, não intervinha na zona aceita de hegemonia soviética. [...]
HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 224.

2.2- A Guerra Fria e a ordem mundial bipolar
A destruição da Europa durante a Segunda Guerra marcou o fim do poder que o continente acumulara nos séculos anteriores. A economia europeia estava desorganizada e mergulhada no esforço de sua reconstrução.
Incapazes de assegurar seu próprio destino, de articular um sistema de defesa e de restaurar sua economia sem ajuda externa, os governantes dos países europeus foram obrigados a enquadrar-se em uma nova ordem mundial, cuja liderança seria disputada pelas potências de fato vitoriosas na guerra: os Estados Unidos e a União Soviética. No início da década de 1940, a União Soviética já se destacava das demais economias do mundo em alguns setores produtivos - siderurgia e petroquímica - e em infraestrutura energética e de transporte, sendo superada apenas pelos Estados Unidos.
Após 1945, com a expansão do socialismo, a URSS passou a exercer influência direta em quase todos os continentes.
Os Estados Unidos, por sua vez, tornaram-se a principal liderança do mundo ocidental (capitalista). A guerra havia se convertido num bom negócio para os americanos, pois suas taxas médias de crescimento econômico, do final da década de 1930 ao início da de 1960, foram superiores às de qualquer outro país.
Após 1945, o mundo foi reordenado a partir desses dois blocos antagônicos. A geopolítica bipolar, marcada pela supremacia dos Estados Unidos (capitalismo) e da União Soviética (socialismo), definiu as relações internacionais e os principais conflitos mundiais.
Em 1947, o presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, declarou no Congresso: "A política dos Estados Unidos será a de prestar apoio aos povos livres que resistem às tentativas de subjugamento por obra de minorias armadas ou de pressões do exterior". Estava lançada a Doutrina Truman, cujos princípios norteariam a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética. Denominada também Doutrina de Contenção, foi criada com o firme propósito de barrar a expansão socialista e inaugurou quatro décadas de disputa entre as duas superpotências. Era o início da Guerra Fria.
De modo geral, os acontecimentos político-militares, entre 1947 e 1989, em todos os países do globo, ocorreram no contexto da hegemonia das duas potências. As interferências dos Estados Unidos e da União Soviética praticamente ocorriam ao mesmo tempo, cada país apoiando um dos lados envolvidos.

2.3- A Organização das Nações Unidas (ONU)
A ONU foi criada em 1945 pela Conferência de São Francisco, com o objetivo de assegurar a paz mundial e promover a cooperação entre os países.
Apesar disso, desde sua criação, não se pôde impedir que ocorressem, no mundo, centenas de conflitos que levaram à morte mais de 20 milhões de pessoas.
Quase todos os países do planeta participam da ONU, que é formada por vários órgãos e por uma série de agências especializadas, como: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Conta também com programas e organizações como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Entre os princípios da Carta das Nações Unidas está registrado que todos os Estados-membros são soberanos e iguais entre si. As resoluções tomadas pela Assembleia Geral, onde cada país tem direito a um voto, têm que ser aprovadas por pelo menos nove dos quinze países que formam o Conselho de Segurança (cinco membros permanentes e dez temporários). No entanto, apenas os cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e China) têm poder de veto.
A estrutura da ONU é bastante questionada no mundo atual. Isso porque emergiram outras potências mundiais, como Japão e Alemanha, que não têm representação permanente no Conselho de Segurança e emergiram também outras nações, como índia e Brasil, que são populosas e apresentam relativa influência entre os países subdesenvolvidos.
Outra crítica é que ela ainda representa a ordem mundial definida pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial. Além disso, os Estados Unidos têm sido acusados de conquistar votos para as questões de seu interesse, oferecendo ajuda financeira aos países mais pobres, e de não acatar as resoluções que afetam seus objetivos internacionais.
A aparente representatividade dos países na Assembleia Geral é também questionável quando se observa que o peso do voto de Tuvalu, com apenas 10 mil habitantes, é equivalente ao da índia, que tem mais de um bilhão de habitantes. Além disso, em diversos momentos, as resoluções da ONU não têm sido respeitadas, o que coloca em cheque sua capacidade de mediar e impedir os conflitos mundiais, objetivos para os quais foi criada.

2.4- Os Estados Unidos e a articulação da economia mundial
Em 1944, na Conferência de Bretton Woods, nos Estados Unidos, os governos dos países capitalistas definiram uma nova ordem econômica, que estimulava a retomada do desenvolvimento capitalista e a maior integração da economia mundial. Para tanto, foram criados o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio (Gatt).
Inicialmente, o Banco Mundial tinha o objetivo de captar fundos para a reconstrução europeia após o término da guerra. Posteriormente, transformou-se numa instituição que fornecia recursos necessários à criação de infraestrutura nos países subdesenvolvidos.
O FMI foi criado para estimular o comércio internacional, promover ajuda econômica e fornecer assessoria técnica aos países membros que apresentassem problemas financeiros. A partir de sua atuação, foram estabelecidas as regras básicas das relações financeiras internacionais. A partir de sua criação, os países associados converteram o valor de suas moedas ao dólar ou ao ouro, ocorrendo, por causa disso, uma valorização da moeda norte americana frente às demais. O dólar passou a ser a moeda de referência no comércio mundial e aceito em todas as transações.
O Gatt foi a terceira instituição criada com o objetivo de intensificar e regulamentar o comércio mundial. Em 1º de janeiro de 1995, foi substituído pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
Essas três instituições são interdependentes: os países que não respeitam as regras estabelecidas pela OMC, por exemplo, não têm acesso aos recursos financeiros do FMI e do Banco Mundial. Da mesma forma, o Banco Mundial só libera recursos para países que orientam sua economia de acordo com as metas estabelecidas ou aprovadas pelo FMI.

2.4.1- O Plano Marshall
Em 1947, os Estados Unidos lançaram o Plano Marshall, que visava consolidar o capitalismo na Europa Ocidental e reconquistar o espaço perdido para os soviéticos na Europa Oriental. O plano consistia numa ajuda econômica de grandes proporções a todos os países europeus atingidos diretamente pela guerra.
A ajuda se destinava, inclusive, aos países que já haviam adotado a orientação socialista e estavam sob influência soviética. Entretanto, devido a pressões da União Soviética, os países do Leste Europeu, exceto a Iugoslávia, recusaram qualquer auxílio dos Estados Unidos.
O Plano Marshall foi estendido também aos países derrotados, como Alemanha (Ocidental) e Itália. O Japão foi beneficiado por um plano similar (Plano Colombo). A recuperação econômica e a regularização do comércio mundial eram essenciais à continuidade do próprio sistema e à contenção do socialismo. Além disso, asseguravam para os Estados Unidos um mercado internacional capaz de absorver sua elevada produção e sua disponibilidade de capital, sem os quais o país poderia mergulhar numa depressão semelhante à de 1929, devido à superprodução de bens e ao excedente de capitais.
O final da Segunda Guerra significou a vitória da democracia sobre o nazi fascismo.  A reestruturação dos países foi acompanhada pelo fortalecimento dos ideais democráticos e o revigoramento do sindicalismo, que acarretou maiores ganhos salariais e melhor distribuição de renda nos países desenvolvidos.
A indústria de bens de consumo duráveis diversificou-se e expandiu o seu mercado. Os lares europeus, e até mesmo de alguns países subdesenvolvidos, foram invadidos por uma avalanche de produtos que passaram a ser consumidos em grande quantidade, sobretudo aparelhos domésticos e automóveis.

2.5- As Alianças Militares
O final da Segunda Guerra sinalizava o prenuncio de um novo conflito, cujas proporções seriam imprevisíveis. Já em 1945, os Estados Unidos mostraram ao mundo o seu poder de dissuasão militar ao forçar a rendição do Japão por meio das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Em 1949, a União Soviética fez o seu primeiro teste nuclear, demonstrando que estava em igualdade de condições no caso de um conflito militar.
Ainda em 1949, sob a liderança dos Estados Unidos, foi criada a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), um sistema de defesa multinacional que reuniu as forças militares dos Estados Unidos, do Canadá e de vários países da Europa.
Em 1955, os países socialistas, sob a liderança soviética, formaram o Pacto de Varsóvia, com a mesma finalidade: a defesa militar comum de seus associados. Em 1991, após o fim da União Soviética, o Pacto de Varsóvia foi extinto.
Atualmente, a Otan é constituída por 28 países. A aproximação da Otan da fronteira da Rússia limita as possibilidades de ações geopolíticas futuras desse país no continente europeu. Desde 2002 a Rússia participa do Conselho da Otan, mas não é considerada membro e não tem direito a voto.
Para muitos analistas, a Otan é hoje um organismo
ultrapassado. Criada no contexto da Guerra Fria, nasceu para fazer face à União Soviética e ao bloco comunista, mas perdeu sua razão de existência. No entanto, tem sido um organismo militar de apoio à
máquina de guerra norte-americana, que tem comandado suas ações nos conflitos que surgiram a partir da década de 1990, com o fim da URSS.

2.6- A Geopolítica da Guerra Fria
A geopolítica bipolar, marcada pela supremacia dos Estados Unidos e da União Soviética, definiu o destino de quase todos os países nas décadas seguintes ao final da Segunda Guerra.
Aproveitando-se de conflitos regionais, as duas superpotências procuravam demarcar ou ampliar suas áreas de influência, que adquiriram dimensão mundial. A Guerra Fria esteve, assim, por trás de quase todos os conflitos ocorridos entre 1947 e 1989.
Cinco anos após o término da Segunda Guerra, em 1950, Estados Unidos e URSS já se defrontavam indiretamente na Guerra da Coreia, que terminou com a divisão do país em Coreia do Norte (socialista) e Coreia do Sul (capitalista). Em 1959, a Revolução Cubana enfrentou a oposição dos vizinhos norte-americanos, o que levou Cuba, nos anos seguintes, ao alinhamento com a União Soviética e à integração ao bloco socialista.
A União Soviética também viveu sérios conflitos em seus domínios, como as tentativas de insurreição na Hungria, em 1956, e na Tchecoslováquia, em 1968, ambas sufocadas pelo exército soviético.
O ano de 1964 marcou a intervenção direta dos Estados Unidos no Vietnã, num conflito contra o colonialismo francês que se arrastava desde o final da Segunda Guerra. Os Estados Unidos, com sua política de contenção do comunismo, sempre apoiaram as tropas francesas. No entanto, a participação direta dos norte-americanos no conflito revelou-se desastrosa. Além das perdas humanas (cerca de 50 mil mortos e 800 mil feridos e mutilados), que mobilizaram negativamente a opinião pública norte-americana, a guerra teve um
custo financeiro astronômico. Em 1973, os Estados Unidos retiraram-se da guerra, derrotados e desmoralizados. Seus modernos recursos militares não conseguiram vencer as dificuldades impostas pela densa floresta tropical e pelas táticas de guerrilha dos vietcongues.
Os Estados Unidos e a União Soviética já haviam iniciado, em 1955, após a morte do ditador russo Josef Stalin, uma política de coexistência pacífica, a détente. No entanto, não cessaram a pesquisa e a produção de armas e mantiveram sua política externa de apoio e estímulo a conflitos em diversas regiões do mundo.

2.7- A questão alemã
Na Conferência de Potsdam, em 1945, após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra, estabeleceram-se a divisão do território alemão, seu desarmamento e as novas divisões de fronteiras com a Áustria, Tchecoslováquia, Polônia e URSS.
O país foi dividido em quatro zonas de ocupação. A parte ocidental foi ocupada por tropas inglesas, francesas e americanas. A parte oriental, formada por cinco estados, transformou-se em zona de ocupação soviética. A Alemanha foi obrigada ainda a ceder à Polônia mais de 100 mil km2 de seu território a leste dos rios Oder e Neisse, e à URSS, a região de Kõnigsberg, atual Kaliningrado.
Berlim, situada no interior da zona de ocupação soviética, também foi dividida em quatro zonas. Berlim Oriental foi ocupada pela URSS, e Berlim Ocidental, por França, Inglaterra e Estados Unidos.
Em 1949, os estados do lado ocidental promoveram uma reforma monetária que criou uma nova moeda, o marco alemão, desvinculada da moeda dos demais estados orientais. Formaram, ainda, uma Assembleia Constituinte, que instituiu uma nova Constituição,
e um Estado alemão independente: a República Federal da Alemanha (RFA). Cinco meses depois, em oposição à criação da RFA, a URSS autorizou a formação de um estado socialista alemão, que originou a República Democrática Alemã (RDA).
As relações entre os dois novos Estados alemães foram de franca oposição. O primeiro-ministro eleito da RFA, Konrad Adenauer, promulgou a Hallstein--Doktrin, que estabelecia o rompimento das relações diplomáticas com os países que reconhecessem a RDA como país soberano. Esta, por sua vez, pressionava a URSS para que autorizasse o bloqueio de suas vias terrestres, utilizadas pela RFA para o abastecimento do lado ocidental da cidade de Berlim. O governo da RDA mantinha a esperança de que toda a cidade caísse sob o seu controle.
Berlim transformou-se numa questão delicada. Desde a formação das duas Alemanhas, mais de 3 milhões de pessoas evadiram-se do lado oriental para o ocidental, principalmente jovens e profissionais qualificados. Somente no primeiro semestre de 1961, a RDA perdeu mais de 200 mil habitantes para a RFA. Além disso, formou-se na cidade um mercado negro, com a venda de alimentos para os ocidentais a preço subsidiado pelo governo socialista oriental.
Em agosto de 1961, a URSS autorizou o governo de Walter Ulbricht a construir um muro, isolando totalmente a parte ocidental da cidade do resto do território da Alemanha Oriental. O Muro de Berlim transformou-se no principal símbolo da Guerra Fria.

2.8- A crise dos mísseis
Em 1962, a tensão entre Estados Unidos e União Soviética chegou a um ponto crítico, quando o país socialista decidiu instalar em Cuba uma base de mísseis nucleares apontados para o território norte-americano. O objetivo era conter qualquer possibilidade de invasão a Cuba, como a ocorrida em 1961, quando refugiados cubanos, apoiados pelos Estados Unidos, tentaram invadir a Baía dos Porcos.
O presidente Kennedy ordenou, então, o imediato bloqueio naval da ilha, pela marinha e pela aviação norte-americana, e deu início a uma dura etapa de negociação com o então secretário-geral do Partido Comunista da URSS, Nikita Krushev.
O momento foi de grande tensão, com a possibilidade real de uma guerra nuclear. A retirada dos mísseis soviéticos de Cuba envolveu pressões com manobras militares das duas grandes potências e esforços diplomáticos. Krushev acabou recuando diante do compromisso assumido pelos Estados Unidos de não invadir o território cubano e de retirar os mísseis instalados na Turquia dirigidos para o território soviético.

2.9- A descolonização e o movimento dos não alinhados
O final da Segunda Guerra Mundial desencadeou a luta pela descolonização dos países africanos e asiáticos. A resistência dos povos colonizados contra a opressão dos colonizadores era antiga, mas ganhou força nesse período.
Além disso, Estados Unidos e União Soviética apoiaram os movimentos de libertação em relação às potências europeias, com o objetivo de ampliar suas esferas de influência.
Com a independência política, surgiram disputas internas pelo controle do poder em diversos países africanos e asiáticos, que se transformaram em guerras civis. Contribuíram, ainda, para agravar a situação econômica e social, ao mesmo tempo em que criaram novas relações de dependência com os Estados Unidos e a União Soviética.
A estratégia fundamental da índia foi a "desobediência civil", que incentivava a população a não respeitar as leis injustas e prejudiciais impostas pelo colonizador; a boicotar a compra do tecido inglês e retomar a tradição de tecer suas próprias vestimentas; e a não pagar abusivos aumentos de impostos determinados pelo império britânico.
Em 1947, depois de resistir de todas as formas ao movimento pacifista liderado por Mahatma Gandhi e reprimir violentamente todas as manifestações pela libertação nacional, a Inglaterra não teve alternativa senão ceder à independência do país.
O pan-africanismo foi expressivo na luta pela descolonização da África. As propostas do movimento tinham como princípio a unidade dos africanos contra o domínio imperialista europeu e a defesa do continente como terra de todos os negros.
Os ideais do pan-africanismo ganharam força após a Segunda Guerra Mundial. Em 1958, foi organizada em Gana a Primeira Conferência dos Povos da África, reunindo diversos líderes africanos empenhados na luta pela libertação e independência. Os principais expoentes do pan-africanismo foram Jomo Queniata, do Quênia, e Kwame Nkrumah, de Gana.
No mundo árabe, surgiu o pan-arabismo. Formulado pelo presidente egípcio Gamai Abdel Nasser, responsável pela nacionalização do Canal de Suez, propunha a união das nações muçulmanas do norte da África e do Oriente Médio. O objetivo era conter a influência ocidental no milenar mundo árabe e na cultura islâmica.
No entanto, no mundo pós-Segunda Guerra, dominado pelas superpotências, a maior parte dos países pan-arabistas foi impelida a alinhar-se a um dos dois modelos políticos e socioeconômicos (capitalismo ou socialismo) e, por consequência, aos Estados Unidos ou à União Soviética.
Houve tentativas de não alinhamento. Uma delas foi o movimento dos não alinhados formado em 1955 na Conferência de Bandung, Indonésia. Reunindo líderes de cerca de 30 países africanos e asiáticos, a conferência exigiu participação mais ativa nas decisões internacionais, uma política de neutralidade em relação à bipolaridade estabelecida pela Guerra Fria e a luta pela libertação nacional contra o colonialismo.
A partir da Conferência de Bandung, popularizou-se o termo Terceiro Mundo, para referir-se aos países independentes das orientações das duas superpotências. Mais tarde, o termo foi aplicado indiscriminadamente ao conjunto dos países subdesenvolvidos. Apesar da proeminência de vários líderes, o bloco dos países "não alinhados" não conseguiu romper a divisão estabelecida por Estados Unidos e União Soviética.

2.9.1- Fim da Ordem Bipolar
De 1945 a 1970, o mundo viveu um ciclo de prosperidade. Tanto a economia capitalista como a socialista tiveram um crescimento econômico surpreendente, ressalvados os diferentes níveis de desenvolvimento entre os países de cada grupo. A partir da década de 1970, os dois modelos econômicos começaram a apresentar sintomas de crise.
No mundo capitalista, a crise teve origem nos crescentes déficits orçamentários e da balança comercial dos Estados Unidos. Esses déficits levaram o governo norte--americano a desvalorizar o dólar em relação ao ouro, em 1971, e a decretar a livre conversibilidade da moeda (ou seja, a flutuação do valor do dólar determinada pelo mercado), em 1973. Era o fim da paridade dólar/ouro estabelecida na Conferência de Bretton Woods.

Déficit orçamentário: situação em que os gastos do governo superam o valor arrecadado.

Balança comercial: relação entre as exportações e as importações de mercadorias realizadas por um país, medida em dólares. 0 déficit na balança comercial ocorre quando o valor das importações supera o valor das exportações, quando ocorre o contrário, a balança comercial registra superávit.
Com a situação deficitária, o dólar se desvalorizou em relação a outras moedas fortes – marco alemão, libra esterlina(Grã-Bretanha) e iene(Japão)-, aumentando a competitividade dos produtos norte-americanos no comércio externo e diminuindo a competitividade dos produtos tradicionalmente importados pelos Estados Unidos. A crise se alastrou por todos os países capitalistas, em razão da força da economia norte-americana no mundo. A recessão espalhou-se e abalou principalmente as economias menos desenvolvidas, que dependiam dos investimentos estrangeiros e das exportações de produtos agrícolas e matérias-primas para os países desenvolvidos. O quadro foi agravado pelo forte aumento do preço do petróleo, em 1973, fato que ficou conhecido como Primeiro Choque do Petróleo.
No mundo socialista, a crise era resultante do esgotamento do próprio modelo econômico. O industrialismo soviético, apoiado nas indústrias de base, de armas e aeroespacial, não acompanhou o
mesmo ritmo de desenvolvimento tecnológico de outros setores -sobretudo os de bens de consumo. A falta de criatividade e agilidade para modificar esse modelo comprometeu o funcionamento de praticamente todo o sistema. Além disso, a União Soviética, assim como os Estados Unidos, gastava quantias enormes em armamentos e na construção de foguetes, naves e satélites espaciais (corrida armamentista e corrida aeroespacial).
No caso dos Estados Unidos, a tecnologia militar acabou sendo adaptada à geração de produtos para a economia civil. Mais de 3 mil novos produtos de consumo, lançados pelos Estados Unidos na segunda metade do século XX, foram criados a partir de tecnologia desenvolvida, inicialmente, para produtos ligados à indústria de guerra ou aeroespacial. Já a União Soviética não conseguiu aproveitar dessa mesma maneira a tecnologia militar.

2.9.2- O Colapso do Socialismo
A URSS vivia um paradoxo: lançou o primeiro satélite artificial (Sputnik, em 1957), fabricou satélites espiões e mísseis de alta precisão, mas não conseguiu desenvolver uma indústria automobilística com tecnologia própria, não fabricou um bom televisor e nem mesmo uma simples enceradeira que funcionasse perfeitamente.
O modelo de economia estatal e planificada apresentava limitações em sua própria concepção. O socialismo, ao transferir todos os meios de produção para a gerência do Estado, não estimulou o desenvolvimento técnico dos setores que considerava secundários, como os bens de consumo. O Estado definia o que seria produzido pelas empresas, determinava as quantidades e estabelecia os preços.
Obrigadas a cumprir as metas de produção e de produtividade traçadas pelos planejadores estatais, as empresas compravam de um único fornecedor as mercadorias ou matérias-primas, independentemente de sua qualidade. Na agricultura, por exemplo, tratores e máquinas agrícolas comumente saíam das fábricas com problemas, tendo de ser consertados pelos próprios agricultores.
No final da década de 1970, a estagnação econômica atingiu praticamente todos os países socialistas. As indústrias estavam com grande capacidade ociosa, faltavam matérias-primas e alimentos e havia dificuldade para importar produtos básicos para o abastecimento da população e o funcionamento da economia. O custo da Guerra Fria se tornara insustentável para a economia soviética e constituía um entrave ao crescimento da produção de bens de consumo, insuficiente para atender a população.
Embora a crise econômica tenha se manifestado já na década de 1970, o Leste Europeu e a União Soviética mantiveram uma situação artificial de preços baixos dentro de suas fronteiras, sem promover qualquer alteração no modelo econômico, ineficiente e improdutivo. Na década de 1980, sua população vivia uma situação inusitada: dispunha de dinheiro, mas não tinha como gastá-lo.
A partir de 1985, o governo de Mikhail Gorbatchev promoveu uma grande alteração na estrutura política e socioeconômica da União Soviética. Implantou a Perestroika (reestruturação ou reconstrução), uma reformulação da economia que tinha como objetivo o aprimoramento de todo o sistema de produção e de propriedade, além da introdução de mecanismos de mercado.
Para vencer a resistência da cúpula do Partido Comunista, as reformas dependiam de um amplo apoio popular que as legitimasse. Para tanto, foi implantada a Glasnost (transparência), conjunto de reformas políticas que concederam liberdade de expressão e de informação, contida até então pelo regime socialista e pela ditadura czarista que o antecedeu.
A política de austeridade e de redução dos gastos públicos levou Gorbatchev a promover, junto ao governo dos Estados Unidos, uma série de acordos de desarmamento, para diminuir os gastos com a corrida armamentista. Os efeitos das transformações na União Soviética, no final da década de 1980, atingiram os países do Leste Europeu, provocando a queda dos governos socialistas, a democratização das instituições e o estabelecimento de eleições livres e diretas. O desmoronamento da economia socialista teve efeitos profundos no espaço geográfico da Europa. Em 1989, a Hungria retirou a cerca de arame farpado que havia em sua fronteira com a Áustria. Os húngaros deram os passos iniciais, no Leste Europeu, em direção à privatização e à economia de mercado.
Na Alemanha Oriental, a evasão de cidadãos para a Alemanha Ocidental, via Tchecoslováquia e Hungria, levou o governo provisório a liberar as viagens para o exterior e a permitir, em 9 de novembro de 1989, o livre trânsito através do Muro de Berlim. A população encarregou-se de fazer o resto. Em poucos dias, quase nada restava do Muro, principal símbolo da Guerra Fria. A queda do Muro abriu caminho para a reunificação da Alemanha em 3 de outubro de 1990.

2.9.3- Problemas de transição nos países socialistas
Não é fácil mudar de um sistema econômico em que a propriedade pertence ao Estado, e a produção não depende do mercado, para um sistema em que o mercado determina o que é produzido, e a produção é realizada pela iniciativa particular.
Quem seriam os proprietários das empresas estatais privatizadas, se teoricamente não existiam pessoas com capital suficiente para comprá-las? Durante a transição, nos países socialistas muitas empresas foram vendidas para empresas estrangeiras; outras foram fechadas, pois não tinham condições de competir no mercado capitalista, ou simplesmente transferidas para grupos privilegiados que tinham influência no processo de privatização. Profissionais de grande competência migraram para outros países ou se sujeitaram a fazer qualquer tipo de trabalho disponível.
Na época do socialismo, existia pleno emprego e amparo social e todos tinham acesso ao sistema público de saúde. A transição para o capitalismo foi marcada pelo enfrentamento de problemas econômicos e sociais graves. Na Rússia, muitos ex-burocratas da antiga URSS passaram a atuar em atividades criminosas, constituindo a máfia russa. No Leste Europeu, segundo a ONU, no início do século XXI, cerca de 1/3 da população vivia abaixo da linha de pobreza.
Apesar das dificuldades, na maioria dos países houve a conquista de liberdades fundamentais, eleições livres e maior autonomia da imprensa. Alguns países do Leste Europeu, até a crise econômica de 2007/2008, conquistaram relativa estabilidade econômica e avanços democráticos com a integração à União Europeia. Muitas empresas deslocaram sua produção para essa região da Europa, em função dos custos mais baixos e da mão de obra qualificada excedente.

2.9.4- O fim da Guerra Fria e as novas fronteiras europeias
Com o fim da Guerra Fria, a população da União Soviética passou a apoiar os políticos que prometiam um caminho mais rápido para a transição. Em 1990, o ultrarreformista Boris Yeltsin foi eleito presidente da Rússia. Após um ano de governo, declarou total autonomia da Rússia em relação à União Soviética, sendo seguido pelas demais repúblicas soviéticas.
O ano de 1991 marcou o fim da União Soviética. As 15 repúblicas socialistas que a constituíam conquistaram a independência. Doze delas associaram-se a uma entidade supranacional mais ampla, a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), cujo limite de atuação e de integração entre os países nunca ficou bem definido. Letônia, Estônia e Lituânia não aderiram à CEI, que atualmente é formada apenas por dez países: o Turcomenistão deixou de ser membro permanente em 2005 e a Geórgia retirou-se definitivamente da CEI em decorrência do conflito aberto com a Rússia sobre a questão da Ossétia do Sul e da Abcásia.
A Tchecoslováquia foi desmembrada em dois países: a República Tcheca e a Eslováquia. Em relação às duas Alemanhas, menos de um ano depois da queda do Muro de Berlim, elas foram unificadas, causando profundas alterações na geopolítica europeia. A Alemanha, já fortalecida economicamente, passou a ser o país europeu com maior influência na porção oriental do continente.
A Iugoslávia foi esfacelada. Formada por várias nacionalidades e culturas distintas, os conflitos separatistas na década de 1990 dividiram-na em seis países independentes: Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Sérvia e Montenegro.
A derrocada do socialismo significou o colapso de todo o sistema de relações internacionais surgido após a Segunda Guerra Mundial. O fim do socialismo na União Soviética e nos países do Leste Europeu abriu as portas para uma reordenação geopolítica no mundo.

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