Ouviram,
do Ipiranga, as margens plácidas,
de um
povo heróico, o brado retumbante.
As
margens plácidas do (Rio) Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo
heróico.
Plácido
quer dizer calmo. Dom Pedro I vinha de Santos, ao longo do Rio Ipiranga, quando
tomou a corajosa decisão de declarar a Independência do Brasil.
Brado é
grito. Retumbante é estrondoso, barulhento, para fazer contraste com a placidez
das margens.
Poderíamos
parafrasear (escrever de outra forma) esse verso assim: As margens calmas do
Rio Ipiranga ouviram o grito estrondoso de um herói (Dom Pedro I) que
representava todo o povo brasileiro.
E o sol
da liberdade, em raios fúlgidos,
brilhou
no céu da Pátria nesse instante.
Fúlgido
significa brilhante. Mas não dava pra dizer: “em raios brilhantes, brilhou”,
porque ficaria repetitivo e pobre. O grito de “Independência ou Morte”
transformava uma nação colonial, dependente de Portugal, em um novo país, autônomo
e livre. Duque Estrada compara a liberdade com um sol brilhante que ilumina o
céu, a Pátria, antes obscurecida pelo colonialismo.
Se o
penhor dessa igualdade,
conseguimos
conquistar com braço forte,
em teu
seio, ó Liberdade,
desafia,
o nosso peito, a própria morte!
Penhor
equivale a garantia, segurança. É comum a gente penhorar algo de valor (em
troca de dinheiro) e receber um papel que garanta a recuperação do objeto
penhorado. O Brasil passou a ser independente e, portanto, conquistou o penhor
da igualdade, ou seja, daquele momento em diante, Portugal e Brasil eram nações
iguais, sem que uma fosse superior à outra. E a frase continua, dizendo: o
nosso peito desafia a própria morte. Simplificando: agora que o povo brasileiro
conquistou seu passe para a liberdade, por sua força e coragem, inspirado nessa
nova liberdade, não hesitará em enfrentar a própria morte (isto é, se tiver de
lutar e morrer, o povo não sentirá medo nem irá recuar).
A frase
pode ser reescrita assim: pela nossa coragem, conquistamos uma igualdade de
condição com quem antes era nosso colonizador e, para manter essa situação de
liberdade, estamos prontos a sacrificar a própria vida.
Ó
pátria amada,
idolatrada,
salve!
Salve!
Idolatrar
é transformar algo ou alguém em ídolo, como se costuma fazer com artistas de
modo geral.
Salve
equivale a uma saudação. Originalmente se dizia: Deus te salve!
Brasil,
um sonho intenso, um raio vívido
de amor
e de esperança à terra desce,
se em
teu formoso céu, risonho e límpido,
a
imagem do Cruzeiro resplandece.
Vívido
é intenso, ardente, vivo. Formoso é belo. Límpido significa transparente,
claro. Resplandecer equivale a brilhar ou luzir intensamente.
Aqui, o
poeta compara o Brasil a um sonho intenso, porque ainda tem muito a realizar.
Sabe-se
que o Cruzeiro do Sul é uma constelação que aparece no céu do Brasil. Ela tem
forma de cruz, que nos lembra Jesus Cristo e as práticas cristãs. Portanto,
vamos refazer os versos para entender o sentido: O Brasil é como um sonho
intenso e, já que em nosso límpido céu a cruz de Cristo resplandece, dessa cruz
desce um raio brilhante que ilumina o Brasil. Ou seja, o Brasil está sob o
amparo e a proteção de Cristo.
Gigante
pela própria natureza,
és
belo, és forte, impávido colosso,
e o teu
futuro espelha essa grandeza.
Se você
olhar o mapa mundial, vai notar que o Brasil é o quinto maior país do mundo
(depois da Rússia, do Canadá, dos Estados Unidos e da China). Com mais de
8.500.000 km2, o Brasil é naturalmente gigantesco.
Note
que, às vezes, os poetas têm o costume de falar diretamente com as coisas, como
se elas fossem pessoas, ou seja, personificando-as: és belo, és forte...
Impávido
significa sem medo, destemido, corajoso. Colosso é uma pessoa ou um objeto de
tamanho muito grande. Vamos reescrever a frase: Tu (Brasil) és belo, forte e,
graças ao tamanho imenso que a natureza te deu, não tens medo de nada. Além
disso, a tua grandeza de hoje vai se revelar no futuro.
Terra
adorada, entre outras mil,
és tu,
Brasil, ó Pátria amada!
Dos
filhos deste solo, és mãe gentil,
Pátria
amada, Brasil!
Esse
trecho é mais fácil de se entender, embora também utilize algumas inversões:
Brasil,
tu és nossa terra adorada, e te escolhemos entre outras mil terras; tu és nossa
Pátria amada, mãe gentil (carinhosa, generosa) dos filhos deste solo (nós,
brasileiros).
Deitado
eternamente em berço esplêndido,
ao som
do mar e à luz do céu profundo,
fulguras,
ó Brasil, florão da América,
iluminado
ao sol do Novo Mundo!
A idéia
que Duque Estrada quer transmitir é a de que a localização geográfica do Brasil
é mesmo muito privilegiada: as montanhas, as matas, os rios, enfim, toda a
natureza forma a imagem de um berço (porque, além do mais, o Brasil, uma nação
que se tornara recentemente independente, era como um imenso país
recém-nascido).
Esplêndido
é maravilhoso, deslumbrante.
Fulguras
é brilhas, resplandeces. Também pode significar distinguir-se ou sobressair
(entre outros).
Florão
é uma decoração bonita e grande em forma de flor, que fica no centro de algo,
em destaque. Ao som do mar, porque temos um litoral muito vasto, com belíssimas
praias; e à luz do céu profundo, isto é, ensolarado, típico dos trópicos.
O sol
do Novo Mundo coloca o Brasil, mais uma vez, como uma nação jovem e promissora.
O Velho Mundo (Europa) conquistou e colonizou o Novo Mundo (América).
Vamos
reescrever: Brasil, tu possuis uma localização espetacular, com uma natureza rica,
muito mar e sol. Por isso, entre outras nações da América (Novo Mundo), tu te
destacas como um florão.
Do que
a terra mais garrida,
teus
risonhos lindos campos têm mais flores;
“nossos
bosques têm mais vida”,
“nossa
vida”, no teu seio, “mais amores”.
Garrida
é colorida, alegre, vistosa. Teus campos risonhos [e] lindos têm mais flores do
que a terra mais garrida (vistosa). Ou seja, nossa natureza é mais colorida e
bela que a de qualquer outra terra.
Nossos
bosques têm mais vida (mais beleza e vitalidade), nossa vida, em teu seio
(dentro de ti, Brasil), mais amores. Equivale a dizer que nós, brasileiros, por
vivermos no Brasil, somos mais capazes de amar. As aspas são usadas por Duque
Estrada no original, pois representam citações dos versos de Gonçalves Dias em
Canção do Exílio:
Minha
terra tem palmeiras,
Onde
canta o sabiá...
Nosso
céu tem mais estrelas,
Nossas
várzeas têm mais flores,
Nossos
bosques têm mais vida,
Nossa
vida, mais amores.
Brasil,
de amor eterno, seja símbolo
o
lábaro que ostentas estrelado.
Um
símbolo é um tipo de signo (pode ser uma palavra, uma medalha, um emblema, uma
cor, um escudo, etc.) que serve para representar alguma outra coisa.
Ostentar
é mostrar com orgulho. O lábaro era um estandarte muito usado pelos romanos.
Aqui, está representado por nossa bandeira, repleta de estrelas. O poeta
comparara a bandeira brasileira a um estandarte e deseja que ela represente o
amor eterno.
O verso
está invertido. Sem a inversão, ficaria assim: Brasil, que o lábaro estrelado
que ostentas seja símbolo de amor eterno.
E diga
o verde-louro desta flâmula
— Paz
no futuro e glória no passado.
Flâmula,
aqui, é sinônimo de bandeira. O louro é uma planta, com cujos galhos os
imperadores romanos eram coroados. Portanto, simboliza poder e glória. Mais uma
vez, vamos olhar para a bandeira. Duque Estrada torce para que o verde-louro da
bandeira simbolize um poder que venceu batalhas gloriosas no passado, quando
isso foi necessário para se conseguir a independência, mas só deseja paz
daquele momento em diante, pois o verde, além da esperança, também simboliza a
paz.
A
palavra louro também pode significar a cor amarela (verde-amarelo); nesse caso,
o autor refere-se, então, ao verde como símbolo da paz e ao amarelo como
símbolo da glória.
Mas, se
ergues, da justiça, a clava forte,
verás
que um filho teu não foge à luta,
nem
teme, quem te adora, a própria morte.
Clava é
um pedaço de pau pesado (mais grosso numa ponta que na outra), que era usado
como arma, semelhante ao tacape, usado por nossos índios.
Vimos
que, no verso anterior, o poeta sonha com a paz no futuro. De repente,
entretanto, esse novo verso diz: mas, se ergues (levantas) a clava forte da
justiça, ou seja, se o país tiver de lutar contra a injustiça, verás que um
brasileiro (filho teu) enfrenta a guerra (não foge à luta).
E quem
te adora não teme a própria morte quer dizer: o brasileiro, que ama tanto seu
país, seria capaz de sacrificar sua própria vida para defendê-lo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário