Geografia da Amizade

Geografia da Amizade

Amizade...Amor:
Uma gota suave que tomba
No cálice da vida
Para diminuir seu amargor...
Amizade é um rasto de Deus
Nas praias dos homens;
Um lampejo do eterno
Riscando as trevas do tempo.
Sem o calor humano do amigo
A vida seria um deserto.
Amigo é alguém sempre perto,
Alguém presente,
Mesmo, quando longe, geograficamente.
Amigo é uma Segunda eucaristia,
Um Deus-conosco, bem gente,
Não em fragmentos de pão,
Mas no mistério de dois corações
Permutando sintonia
Num dueto de gratidão.
Na geografia
da amizade,
Do amor,
Até hoje não descobri
Se o amigo é luz, estrela,
Ou perfume de flor.
Sei apenas, com precisão,
Que ele torna mais rica e mais bela
A vida se faz canção!

"Roque Schneider"


Quem sou eu

Salvador, Bahia, Brazil
Especialista em Turismo e Hospitalidade, Geógrafa, soteropolitana, professora.

sábado, 24 de setembro de 2011

As mulheres afegãs sofrem sob as leis do tribalismo, da pobreza e da guerra. Mas agora começam a lutar por uma vida decente.



Há 25 anos, uma garota afegã de olhos verdes causou espanto na capa de National Geographic. Uma jovem refugiada tentando escapar da guerra entre os comunistas, apoiados pela hoje extinta União Soviética, e os mujahedins, guerrilheiros islâmicos sustentados pelos Estados Unidos, ela tornou-se a imagem do desespero em seu país. O atual ícone do Afeganistão é de novo uma jovem, Bibi Aisha, cujo marido cortou-lhe o nariz e as orelhas como castigo por ter fugido dele e de sua família. Bibi fizera isso para escapar dos espancamentos e de outros abusos a que era submetida.

Por que maridos, pais, cunhados e até sogras brutalizam as mulheres de suas famílias? Seriam esses atos violentos consequência de uma sociedade tradicional que se vê arrastada para o século 21 depois de anos de isolamento e guerras? E quais membros dessa sociedade estão cometendo tais violências? Há diferenças significativas entre azaras, tadjiques, uzbeques e os pashtuns, o grupo mais populoso e conservador, dominante na vida política do Afeganistão desde os anos 1880.

Na área chamada "crescente pashtum", desde a província de Farah, no oeste, até Kunar, no noroeste, a vida era, e em muitos sentidos ainda é, organizada em torno do código pashtunwali, "à maneira dos pashtuns". Seu fundamento é a honra masculina, avaliada segundo três tipos de posse: zar (ouro), zamin (terra) e zan (mulheres). Os princípios nos quais se edifica uma vida honorável são melmastia (hospitalidade), nanawati (abrigo ou asilo) e badal (justiça ou vingança).

Quanto maior a hospitalidade de um homem, maior será sua honra. Se um estranho ou mesmo inimigo aparece em sua porta pedindo proteção, sua honra depende de acolhê-lo. Se qualquer dano for infligido à terra, às mulheres ou ao ouro de um homem, ele deverá buscar vingança. Um homem sem honra é um homem sem substância, sem bens, sem dignidade. Todavia, não é aceitável para uma mulher ser hospitaleira ou se vingar. Elas raramente são agentes ativos. Pelo contrário, são bens comercializáveis e objetos de disputa - até não aguentarem mais.

Em um abrigo para mulheres que escaparam de abuso doméstico, em Cabul, ouvi falar de uma garota proveniente de uma das mais ricas famílias pashtuns de uma província na fronteira com o Paquistão. Ela apaixonou-se por um rapaz da tribo errada. Seu pai matou o rapaz e quatro de seus irmãos e, ao descobrir que a própria mãe ajudara a filha a fugir da ira paterna, matou a mulher também. Agora está oferecendo 100 000 dólares de recompensa pelo cadáver da filha.

São atos extremos praticados por homens extremados. Muitos indivíduos da etnia pashtun percebem que sua masculinidade e o próprio estilo de vida se acham sob ataque - de forças militares externas, de líderes religiosos estrangeiros, de organizações de direitos humanos -, e se agarram a tradições que por tanto tempo definiram o que é ser homem entre os pashtuns.

Um dia, em uma livraria de Cabul, achei uma coleção de landays - "curtinhos" -, os poemas de dois versos que os pashtuns recitam uns para os outros em seu ponto de encontro em torno do poço da aldeia ou nas festas de casamento. O conteúdo do livro, publicado sob o título original de Suicídio e Canção, foi compilado por Sayd Bahodine Majrouh, famoso poeta afegão assassinado em seu exílio no Paquistão, em 1988. Ele começou coletando landays femininos em sua terra natal, no vale do rio Kunar. Humanista que era, Majrouh achava gloriosos esses clamores vindos do coração que desafiavam as convenções e, de várias formas, zombavam da honra masculina. Do berço à cova, a vergonha e a tristeza são o fardo da mulher pashtun. Ela não é merecedora de amor, eis o que lhe ensinam. Por essa razão, escreve Majrouh, os landays são um "grito de separação" da ideia de amor e uma revelação das misérias de um casamento servil.

Um marido pashtum, não raro, ou é uma criança ou um velho, imposto pelos laços tribais:
Você aí de barba branca não tem vergonha, não?/Enquanto você acaricia meus cabelos, dou minhas risadas em silêncio.
Uma mulher zomba da virilidade do marido:
Hoje, durante o combate, meu amante deu as costas ao inimigo./Tenho vergonha de tê-lo beijado ontem à noite.
Ou verbaliza seu desejo frustrado:
Vem, meu amado, vem para perto de mim. O "pavoroso" dorme, pode me beijar agora.
O "pavoroso" é o homem com quem a mulher foi forçada a casar-se, um tolo traído. Somente longe de suas vistas é que ela encontrará o amor verdadeiro. Na percepção de Majrouh, as mulheres pashtuns, apesar de toda a submissão, sempre viveram em estado de ânsia por rebelião e pelos prazeres da vida terrena. Ele deu a seu livro o título de Suicídio e Canção porque são essas as duas formas que elas têm de expressar sua angústia. Na época do poeta, os métodos de suicídio eram envenenamento e afogamento. Agora são envenenamento e autoimolação pelo fogo.

O Parlamento afegão propôs recentemente um projeto de lei visando eliminar a violência contra as mulheres. Elas, por sua vez, começam a rejeitar as velhas práticas. Visitei, em Cabul, o lar de Sahera Sharif, pashtun e a primeira parlamentar feminina de Khost. "Ninguém sabia que uma mulher podia afixar pôsteres de campanha política nos muros. Os homens nem permitiam que as mulheres tivessem um emprego lá", diz ela.

Em criança, Sahera enfrentou o pai, um mulá conservador, trancando-se em um armário até ele permitir que ela fosse à escola. Sahera atravessou a guerra civil em meio a grupos rivais de mujahedins que arrasaram Cabul antes da vitória do Talibã, em 1996. Testemunhou atrocidades inimagináveis. "Boa parte da violência e crueldade que se vê agora", conta, "tem origem no fato de que as pessoas ficaram loucas com tantas guerras."

Depois da queda do Talibã, em dezembro de 2001, Sahera Sharif abriu uma estação de rádio para educar as mulheres sobre higiene e noções de saúde. Em uma atitude ainda mais radical, ela apresentou-se como voluntária para dar aulas na universidade em Khost, tornando-se a primeira mulher a fazer isso. Sahera aposentou a burca - outro pioneirismo - e postou-se diante dos alunos homens para lhes ensinar psicologia. Eles ficaram corados. E assim ela começou a educá-los.

Enquanto conversamos, vejo o quanto Sahera se tornou uma inspiração para sua filha de 15 anos, Shkola, que veio interromper a mãe para me mostrar uma foto em uma revista. Uma mulher jazia com a garganta cortada por membros da família de seu marido. A mãe da vítima, ensandecida de dor, suplicara à revista que publicasse a foto. "Fiquei chocada com esta imagem", diz Shkola. "Eu a via e revia, como um filme."

Shkola estuda história islâmica e direito. Ela quer se tornar advogada para ajudar as mulheres a se defenderem. Enquanto isso, Shkola pesquisa livros iranianos atrás de histórias para crianças, "como as que vocês têm", confidencia-me ela. "Vou traduzindo as que encontro para o pashtun. Também estou escrevendo um romance."

Em vários cantos do país - em Khost e Kandahar, em Herat e Cabul - encontrei garotas como Shkola. Elas não estão escrevendo os velhos landays, mas sim poemas e romances, além de rodar documentários e filmes de ficção. São essas as novas histórias que as mulheres estão contando sobre sua vida no Afeganistão.

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