Geografia da Amizade

Geografia da Amizade

Amizade...Amor:
Uma gota suave que tomba
No cálice da vida
Para diminuir seu amargor...
Amizade é um rasto de Deus
Nas praias dos homens;
Um lampejo do eterno
Riscando as trevas do tempo.
Sem o calor humano do amigo
A vida seria um deserto.
Amigo é alguém sempre perto,
Alguém presente,
Mesmo, quando longe, geograficamente.
Amigo é uma Segunda eucaristia,
Um Deus-conosco, bem gente,
Não em fragmentos de pão,
Mas no mistério de dois corações
Permutando sintonia
Num dueto de gratidão.
Na geografia
da amizade,
Do amor,
Até hoje não descobri
Se o amigo é luz, estrela,
Ou perfume de flor.
Sei apenas, com precisão,
Que ele torna mais rica e mais bela
A vida se faz canção!

"Roque Schneider"


Quem sou eu

Salvador, Bahia, Brazil
Especialista em Turismo e Hospitalidade, Geógrafa, soteropolitana, professora.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Etnia e Modernidade

1-  Introdução:

A diversidade étnica e a coexistência entre povos marcaram a história da humanidade em diferentes espaços geográficos. No entanto, conflitos étnicos, preconceitos e intolerância também acompanham a trajetória do ser humano. Muitas vezes, conflitos são justificados por pressupostos como superioridade cultural, diferenças religiosas e direitos de uma nação sobre determinado território. Mas, por trás de muitos conflitos, estão em jogo interesses econômicos, políticos e disputas territoriais.

1.1. Diversidade Cultural:
Nos primórdios devido ao pouco contato entre as sociedades e diversos grupos era quase impossível reconhecer os valores e características de cada povos, pois os esporádicos contatos entre os diversos grupos acabavam ocasionando muito choque entre as diversas culturas como também uma falta de assimilação dos valores e costumes entre as sociedades existentes.
Com o passar dos tempos em virtude das diversas migrações, guerras, disputas, conquistas de territórios, bem como do desenvolvimento e crescimento das atividades comerciais essa questão modificou e por tudo isso possibilitou o surgimento de novas culturas.

1.2. Etnia, identidade étnica, etnocentrismo e relativismo cultural:
1.2.1. Etnia: é um elemento básico do processo de identificação de um grupo sociocultural.
1.2.2. Identidade Cultural: são os fatores construídos historicamente, como ancestralidade, língua, religiosidade dentre outros.
1.2.3. Etnocentrismo: é a avaliação do mundo dos diferentes grupos étnicos a partir de valores e padrões de comportamento aceitos pelo seu próprio grupo.
1.2.4. Darwinismo Cultural: Segundo Charles Darwin, cientista britânico, as diferentes sociedades passariam por diversas etapas de evolução, indo do primitivo ao civilizado, com isso através da seleção natural e evolução das espécies as sociedades Ocidentais europeias e norte-americana teriam atingido o estágio de “civilizado”, enquanto que as sociedades da África, Ásia, Oceania e demais povos da América estariam no estágio de “primitivos” e isso levou com que esses povos colonizassem e conquistassem territórios como processo civilizatório.
1.2.5 Relativismo Cultural: No início do século XX o antropólogo Frans Boaz, defendia não haver cultura superior ou inferior, pois na sua concepção dever-se-ia considerar os fatores  históricos, linguísticos e naturais no desenvolvimento de cada cultura, fazendo com que as sociedades fossem analisadas de maneira menos preconceituosas, onde surge o relativismo cultural, este pressupõe  que os valores de uma cultura não podem ser avaliados tendo como referência os valores de quem a julga.

1.3. Civilização Ocidental e Modernidade
Algumas sociedades foram favoráveis a trocas culturais,  pelas suas localizações geográficas, como exemplo o Oriente Médio, contudo os europeus no século XV foram os que mais se deslocaram, ampliaram e diversificaram seus contatos principalmente através do capitalismo comercial.
O Capitalismo Comercial ou mercantilismo refere-se ao estágio inicial do capitalismo, onde a troca de mercadorias era fundamental. O Capitalismo Comercial é conhecido como a primeira fase do Capitalismo. Sua gestação começou no Renascimento Comercial dos séculos XIII e XIV. Porém, o Capitalismo Comercial ganhou força no início no século XV com o desenvolvimento da burguesia comercial europeia. As grandes navegações e conquistas marítimas dos séculos XV e XVI foram de fundamental importância para o desenvolvimento do capitalismo neste momento.
Nesse período não podemos deixar de citar os Estados Nacionais, que surgiram no século XVI com a formação de Portugal e Espanha e que a partir do século XIX passou a ser modelo de estruturação territorial e política p0redominante no mundo, porém nessa época os europeus além de imporem seus valores aos povos da América, África, Ásia e Oceania, também assimilaram elementos culturais desses povos dominados e todo esse processo consolidado pela Revolução Industrial e a Revolução Francesa ocorridas no século XVIII, acabou dando origem a Civilização Ocidental.
A Revolução Industrial ocorrida na segunda metade do século XVIII deu impulso ao desenvolvimento à expansão capitalista, à acumulação de capitais e à difusão das relações de trabalho assalariado, além disso deu início a produção em massa, a padronização de mercadorias e por fim expandiu o comércio internacional.
A Revolução Francesa ocorrida em 1789, influenciados pelos ideais do Iluminismo que foi  marcada por transformações políticas tais como a criação e consolidação de estados-nação, a expansão de direitos civis, e a redução da influência de instituições hierárquicas como a nobreza e a igreja, a partir disso o 3º estado começou a se revoltar e a lutar pela igualdade de todos perante a lei. Pretendiam combater, dentre outras coisas, o absolutismo monárquico e os privilégios da nobreza e do clero. Pois nesse período a França tinha a maior população do mundo, e era dividida em três estados: clero (1º estado), nobreza (2º estado) e povo (3º estado). Onde o 3º estado, ou seja, o povo  tinha que arcar com todas as despesas do 1º e 2º estado, uma vez que o clero e a nobreza  tinham vários privilégios: não pagavam impostos, recebiam pensões do estado e podiam exercer cargos públicos.
Um dos aspectos marcantes da Sociedade Ocidental  e do próprio capitalismo é o individualismo  é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade ou ao Estado. Em princípio, opõe-se a toda forma de autoridade ou controle sobre os indivíduos e coloca-se em oposição ao coletivismo.

1.3.1- Modernidade e Cultura
Percebe-se que muitas das sociedades de cultura milenar, não foram totalmente absorvidas pelas mudanças de valores, como o Japão, a China, a Coreia do Sul, a Índia e outros países, o que essas sociedades assimilaram foi a modernidade, nesse caso a estrutura político-administrativa dos Estados-nações, assimilaram técnicas, sistemas de produção e gerenciamento, contudo eles mantiveram seus traços de cultura milenar.
É bom lembrar que uma dessas modernidades foi o sistema Just in time amplamente adotado no ocidente e por sua vez no oriente .
Just in time é um sistema de administração da produção que determina que nada deve ser produzido, transportado ou comprado antes da hora certa. O termo Just in time é em inglês, e significa na hora certa.

1.4- A Questão Étnica no Brasil: Povos indígenas e afrodescendentes

O Brasil é formado por um mosaico étnico, que se ampliou com o processo de colonização no século XVI. Entre os séculos XVI e XIX os portugueses trouxeram os afrodescendentes para vir trabalhar aqui, além de em consequência disso vieram imigrantes europeus diversos (italianos, espanhóis, alemães, poloneses ) e asiáticos ( árabes, japoneses, chineses), que se misturaram com o índios, trazendo a grande diversidade de raças existentes atualmente.

1.5- A Situação dos povos indígenas
Dos indígenas que escaparam da escravidão - milhares resistiram ao trabalho imposto pelos portugueses -, muitos foram exterminados durante o processo de colonização e, posteriormente, em conflitos com fazendeiros, garimpeiros e outros grupos econômicos que invadiam suas terras. Além das mortes em conflitos, grupos inteiros de indígenas foram aniquilados ao contraírem as doenças trazidas pelos colonizadores, como gripo, catapora e sarampo. Outros grupos tiveram sua cultura descaracterizada pelos processos de aculturação.
O universo indígena brasileiro é bastante diferenciado Algumas nações indígenas mantêm a sua identidade e as suas tradições, apesar de terem um grau de contato com o restante da sociedade. Há também nações que só falam português e adquiriram hábitos da civilização.

1.6- Terras indígenas
A fundação nacional do Índio (Funai) reconhece 556 terras indígenas no Brasil, das quais cerca de 70% estão localizadas na Amazônia.
A constituição brasileira de 1988 reconheceu os direitos dos povos indígenas como primeiros habitantes de suas terras e estabeleceu que elas fossem demarcadas até 1995. Decorrida a primeira década do século XXI, esse processo encontra-se ainda em andamento, muitas vezes envolvendo grandes conflitos.
Foi o caso da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, situada no Estado de Roraima, em 2009. A área era alvo de disputa entre cinco etnias indígenas (Maceuxi, Wapixma, Ingarikó, Taurepang e Nantamona) e ocupação não indígenas. Estes últimos dedicavam-se a atividade agrícolas, principalmente a produção de arroz.
A terras indígenas são frequentemente invadidas pelas grandes empresas madeiras, por garimpeiros e agropecuaristas, entre outros grupos. Essas atividades, mesmo quando praticadas próximos as terras indígenas, comprometem o meio ambiente e constituem uma ameaça à subsistência desses povos.

1.7- A situação dos afrodescendentes

A palavra afrodescendente é formada por dois adjetivos: afro, que faz referência ao africano, mais descendente que é aquele que descende de, que provém por geração, portanto, afrodescendente significa “descendente de africano”.

Estima-se que 200 milhões de pessoas que se identificam como sendo afrodescendentes vivem nas Américas. O Brasil tem o maior número de pessoas de ascendência africana fora de seu continente.
O Brasil tem a maior população negra fora da África e a segunda maior do planeta. A Nigéria, com uma população estimada de 85 milhões, é o único país do mundo com uma população negra maior que a brasileira.
O continente africano tornou-se durante mais de três séculos, o grande celeiro de mão de obra escrava para a acumulação capitalista europeia e para os proprietários rurais e de minas na América. Milhões de negros africanos foram trazidos para a América ao longo de séculos de migrações forçadas, eram embarcados geralmente em Angola, Moçambique e Guiné e desembarcados no Recife, Salvador e Rio de Janeiro.
Segundo alguns autores, cerca de 10 milhões de escravos entraram na América no período de 1502 a 1870. Ao longo desses séculos se formou uma grande miscigenação entre europeus, principalmente portugueses, negros e índios. Poucos países do mundo passaram por uma miscigenação tão intensa quanto o Brasil.
O Brasil foi o último país ocidental a abolir a escravidão, contudo apesar de libertos, os ex-escravizados, continuam em situações desfavoráveis.

1.7.1- Racismo no Brasil?
O preconceito racial no Brasil é o que alguns autores chamam de preconceito “de marca”, ou seja, que recai sobre o fenótipo do indivíduo (tipo de cabelo, traços e cor da pele). Ele não recai diretamente sobre a ancestralidade, pois no Brasil as classificações raciais se baseiam mais na aparência física da pessoa do que na ancestralidade. É um racismo que aparece como expressão de foro íntimo, mais apropriado ao recesso do lar. A escravidão foi abolida, houve a universalização das leis, mas o padrão tradicional de acomodação racial não foi alterado, mas apenas camuflado. Apesar da tão falada “miscigenação brasileira”, um sistema enraizado de hierarquização social com base em critérios como classe social, educação formal, origem familiar e na raça continuaram. Se após a Segunda Guerra Mundial o darwinismo racial foi perdendo força e o conceito biológico de raça foi se desmontando, o “preconceito de cor” fazia as vezes da raça.
O racismo no Brasil está nas diferenças no acesso à educação e ao lazer, na distribuição desigual de rendas, marcas da discriminação que fugiam à alçada oficial, mas que eram evidentes no cotidiano. A desconstrução do mito da democracia racial circunscreveu o tema racial a uma questão de classe e abandonou a cultural. O tema racial parecia subsumido à luta entre classes e seu problema não seria resolvido por meio do enfrentamento de suas especificidades. Os estudos mais recentes, todavia, demonstraram que o preconceito de cor não estava exclusivamente atrelado a uma questão econômica e social, mas que continuava como um divisor da sociedade. O racismo brasileiro é de foro íntimo, presente na intimidade, mas camuflado quando toma a esfera pública.

1.7.2- Ações Afirmativas
Devido as desigualdades existentes no mundo e em particular no Brasil, uma das maneiras encontradas para corrigir essas desigualdades, foram criadas várias ações, dentre elas a Política de Ações Afirmativas.
Empregadas em diversos países como África do Sul, EUA dentre outros, trata-se do conjunto de medidas especiais voltadas a grupos discriminados e vitimados pela exclusão social ocorridos no passado ou no presente.
O objetivo das ações afirmativas é eliminar as desigualdades e segregações, de forma que não se mantenham grupos elitizados e grupos marginalizados na sociedade, ou seja, busca-se uma composição diversificada onde não haja o predomínio de raças, etnias, religiões, gênero, etc.
Por meio de políticas que propiciem uma maior participação destes grupos discriminados na educação, na saúde, no emprego, na aquisição de bens materiais, em redes de proteção social e de reconhecimento cultural.
Muitas ações afirmativas já foram e são feitas no Brasil, podemos citar: aumento da participação dos grupos discriminados em determinadas áreas de emprego ou no acesso à educação por meio de cotas; concessão de bolsas de estudo; prioridade em empréstimos e contratos públicos; distribuição de terras e moradias; medidas de proteção diferenciada para grupos ameaçados, etc..

1.8- Comunidades quilombolas
O termo quilombola vem do tupi-guarani cañybó e significa «aquele que foge muito».
Quilombolas é designação comum aos escravos refugiados em quilombos, ou descendentes de escravos negros cujos antepassados no período da escravidão fugiram dos engenhos de cana-de-açúcar, fazendas e pequenas propriedades onde executavam diversos trabalhos braçais para formar pequenos vilarejos chamados de quilombos.
Um levantamento da Fundação Cultural Palmares (FCP) mapeou 3.524 comunidades quilombolas no Brasil, vale ressaltar que os cinco estados brasileiros com maior concentração de quilombolas são: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Maranhão e Pará. Há outras fontes, no entanto, que estimam cerca de 5 mil comunidades. São muitas as dificuldades que os quilombolas enfrentam para conquistarem, legalmente, o direito ao território: desde o processo de identificação e reconhecimento (certificação), passando pelos inúmeros procedimentos formais estabelecidos pelo Decreto para a delimitação, demarcação e, por fim, a titulação, sob a responsabilidade do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e dos Institutos de Terra estaduais, incluindo muitas vezes, disputas judiciais. Estima-se que essas  comunidades quilombolas espalhadas pelo território brasileiro mantêm-se vivas e atuantes, lutando pelo direito de propriedade de suas terras consagrado pela Constituição Federal desde 1988. Dentre essa comunidades apenas,  2.840 estão certificadas pela Fundação Cultural Palmares, segundo dados de 2014.

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