Geografia da Amizade

Geografia da Amizade

Amizade...Amor:
Uma gota suave que tomba
No cálice da vida
Para diminuir seu amargor...
Amizade é um rasto de Deus
Nas praias dos homens;
Um lampejo do eterno
Riscando as trevas do tempo.
Sem o calor humano do amigo
A vida seria um deserto.
Amigo é alguém sempre perto,
Alguém presente,
Mesmo, quando longe, geograficamente.
Amigo é uma Segunda eucaristia,
Um Deus-conosco, bem gente,
Não em fragmentos de pão,
Mas no mistério de dois corações
Permutando sintonia
Num dueto de gratidão.
Na geografia
da amizade,
Do amor,
Até hoje não descobri
Se o amigo é luz, estrela,
Ou perfume de flor.
Sei apenas, com precisão,
Que ele torna mais rica e mais bela
A vida se faz canção!

"Roque Schneider"



Quem sou eu

Salvador, Bahia, Brazil
Especialista em Turismo e Hospitalidade, Geógrafa, soteropolitana, professora.

sábado, 24 de setembro de 2011

As mulheres afegãs sofrem sob as leis do tribalismo, da pobreza e da guerra. Mas agora começam a lutar por uma vida decente.



Há 25 anos, uma garota afegã de olhos verdes causou espanto na capa de National Geographic. Uma jovem refugiada tentando escapar da guerra entre os comunistas, apoiados pela hoje extinta União Soviética, e os mujahedins, guerrilheiros islâmicos sustentados pelos Estados Unidos, ela tornou-se a imagem do desespero em seu país. O atual ícone do Afeganistão é de novo uma jovem, Bibi Aisha, cujo marido cortou-lhe o nariz e as orelhas como castigo por ter fugido dele e de sua família. Bibi fizera isso para escapar dos espancamentos e de outros abusos a que era submetida.

Por que maridos, pais, cunhados e até sogras brutalizam as mulheres de suas famílias? Seriam esses atos violentos consequência de uma sociedade tradicional que se vê arrastada para o século 21 depois de anos de isolamento e guerras? E quais membros dessa sociedade estão cometendo tais violências? Há diferenças significativas entre azaras, tadjiques, uzbeques e os pashtuns, o grupo mais populoso e conservador, dominante na vida política do Afeganistão desde os anos 1880.

Na área chamada "crescente pashtum", desde a província de Farah, no oeste, até Kunar, no noroeste, a vida era, e em muitos sentidos ainda é, organizada em torno do código pashtunwali, "à maneira dos pashtuns". Seu fundamento é a honra masculina, avaliada segundo três tipos de posse: zar (ouro), zamin (terra) e zan (mulheres). Os princípios nos quais se edifica uma vida honorável são melmastia (hospitalidade), nanawati (abrigo ou asilo) e badal (justiça ou vingança).

Quanto maior a hospitalidade de um homem, maior será sua honra. Se um estranho ou mesmo inimigo aparece em sua porta pedindo proteção, sua honra depende de acolhê-lo. Se qualquer dano for infligido à terra, às mulheres ou ao ouro de um homem, ele deverá buscar vingança. Um homem sem honra é um homem sem substância, sem bens, sem dignidade. Todavia, não é aceitável para uma mulher ser hospitaleira ou se vingar. Elas raramente são agentes ativos. Pelo contrário, são bens comercializáveis e objetos de disputa - até não aguentarem mais.

Em um abrigo para mulheres que escaparam de abuso doméstico, em Cabul, ouvi falar de uma garota proveniente de uma das mais ricas famílias pashtuns de uma província na fronteira com o Paquistão. Ela apaixonou-se por um rapaz da tribo errada. Seu pai matou o rapaz e quatro de seus irmãos e, ao descobrir que a própria mãe ajudara a filha a fugir da ira paterna, matou a mulher também. Agora está oferecendo 100 000 dólares de recompensa pelo cadáver da filha.

São atos extremos praticados por homens extremados. Muitos indivíduos da etnia pashtun percebem que sua masculinidade e o próprio estilo de vida se acham sob ataque - de forças militares externas, de líderes religiosos estrangeiros, de organizações de direitos humanos -, e se agarram a tradições que por tanto tempo definiram o que é ser homem entre os pashtuns.

Um dia, em uma livraria de Cabul, achei uma coleção de landays - "curtinhos" -, os poemas de dois versos que os pashtuns recitam uns para os outros em seu ponto de encontro em torno do poço da aldeia ou nas festas de casamento. O conteúdo do livro, publicado sob o título original de Suicídio e Canção, foi compilado por Sayd Bahodine Majrouh, famoso poeta afegão assassinado em seu exílio no Paquistão, em 1988. Ele começou coletando landays femininos em sua terra natal, no vale do rio Kunar. Humanista que era, Majrouh achava gloriosos esses clamores vindos do coração que desafiavam as convenções e, de várias formas, zombavam da honra masculina. Do berço à cova, a vergonha e a tristeza são o fardo da mulher pashtun. Ela não é merecedora de amor, eis o que lhe ensinam. Por essa razão, escreve Majrouh, os landays são um "grito de separação" da ideia de amor e uma revelação das misérias de um casamento servil.

Um marido pashtum, não raro, ou é uma criança ou um velho, imposto pelos laços tribais:
Você aí de barba branca não tem vergonha, não?/Enquanto você acaricia meus cabelos, dou minhas risadas em silêncio.
Uma mulher zomba da virilidade do marido:
Hoje, durante o combate, meu amante deu as costas ao inimigo./Tenho vergonha de tê-lo beijado ontem à noite.
Ou verbaliza seu desejo frustrado:
Vem, meu amado, vem para perto de mim. O "pavoroso" dorme, pode me beijar agora.
O "pavoroso" é o homem com quem a mulher foi forçada a casar-se, um tolo traído. Somente longe de suas vistas é que ela encontrará o amor verdadeiro. Na percepção de Majrouh, as mulheres pashtuns, apesar de toda a submissão, sempre viveram em estado de ânsia por rebelião e pelos prazeres da vida terrena. Ele deu a seu livro o título de Suicídio e Canção porque são essas as duas formas que elas têm de expressar sua angústia. Na época do poeta, os métodos de suicídio eram envenenamento e afogamento. Agora são envenenamento e autoimolação pelo fogo.

O Parlamento afegão propôs recentemente um projeto de lei visando eliminar a violência contra as mulheres. Elas, por sua vez, começam a rejeitar as velhas práticas. Visitei, em Cabul, o lar de Sahera Sharif, pashtun e a primeira parlamentar feminina de Khost. "Ninguém sabia que uma mulher podia afixar pôsteres de campanha política nos muros. Os homens nem permitiam que as mulheres tivessem um emprego lá", diz ela.

Em criança, Sahera enfrentou o pai, um mulá conservador, trancando-se em um armário até ele permitir que ela fosse à escola. Sahera atravessou a guerra civil em meio a grupos rivais de mujahedins que arrasaram Cabul antes da vitória do Talibã, em 1996. Testemunhou atrocidades inimagináveis. "Boa parte da violência e crueldade que se vê agora", conta, "tem origem no fato de que as pessoas ficaram loucas com tantas guerras."

Depois da queda do Talibã, em dezembro de 2001, Sahera Sharif abriu uma estação de rádio para educar as mulheres sobre higiene e noções de saúde. Em uma atitude ainda mais radical, ela apresentou-se como voluntária para dar aulas na universidade em Khost, tornando-se a primeira mulher a fazer isso. Sahera aposentou a burca - outro pioneirismo - e postou-se diante dos alunos homens para lhes ensinar psicologia. Eles ficaram corados. E assim ela começou a educá-los.

Enquanto conversamos, vejo o quanto Sahera se tornou uma inspiração para sua filha de 15 anos, Shkola, que veio interromper a mãe para me mostrar uma foto em uma revista. Uma mulher jazia com a garganta cortada por membros da família de seu marido. A mãe da vítima, ensandecida de dor, suplicara à revista que publicasse a foto. "Fiquei chocada com esta imagem", diz Shkola. "Eu a via e revia, como um filme."

Shkola estuda história islâmica e direito. Ela quer se tornar advogada para ajudar as mulheres a se defenderem. Enquanto isso, Shkola pesquisa livros iranianos atrás de histórias para crianças, "como as que vocês têm", confidencia-me ela. "Vou traduzindo as que encontro para o pashtun. Também estou escrevendo um romance."

Em vários cantos do país - em Khost e Kandahar, em Herat e Cabul - encontrei garotas como Shkola. Elas não estão escrevendo os velhos landays, mas sim poemas e romances, além de rodar documentários e filmes de ficção. São essas as novas histórias que as mulheres estão contando sobre sua vida no Afeganistão.

Os difíceis anos da guerra civil no Sudão do Sul



Certo dia, anos atrás, antes de a última guerra civil ter começado de verdade, um menino sudanês chamado Logocho espiou para dentro da cabana de sua família. Então seu pai o agarrou, e segurou-o com força no chão de terra.

Menino estranho, esse Logocho. Sobre ele, os ombros e o peito do pai ondulavam com cicatrizes tribais. Uma espécie de código Morse com pontos e traços adornava o rosto e a testa do pai, anunciando aos eventuais ladrões de gado - os dinka, os nuer - que ele, um murle, defenderá seu rebanho com a lança, os punhos e os dentes.

Mas o filho dele, Logocho, não demonstrava muito interesse pelos velhos costumes. Quando outras crianças, entre as quais o irmão, se submeteram a um dos primeiros ritos de passagem murle, ele escapuliu e foi se esconder no mato. Agora o seu corpo, macio como o de um bezerro, tremia e se agitava na poeira. Sem nenhuma marca que o distinguia como um murle.

O garoto de 9 anos também não tinha apreço pelo gado. Como o irmão, Logocho se agachava para sugar as tetas das vacas, mas o fazia apenas pelo leite. Durante incontáveis gerações, os homens murle - assim como seus rivais em toda a região meridional do Sudão - haviam vivido ao lado de suas vacas. Davam-lhes nomes, colocavam-lhes adornos, dormiam ao lado delas. Faziam canções sobre elas. Os homens usavam o gado como dotes para conseguir noivas.

"O que você quer da vida, menino?", perguntou o pai de Logocho. "O quê?"

Enquanto os homens e os animais migravam de uma cacimba a outra, Logocho preferia ficar com a avó. A mulher idosa riscava linhas na terra dura e ingrata para cultivar sorgo, feijão, milho, até abóbora, e em tempos de penúria os homens iam procurá-la com as mãos estendidas. Logocho a ajudava a semear, cuidar dos brotos e fazer a colheita. Ela sempre o protegia de seu temido pai. "Você é especial", dizia a velha.

Naquele momento, porém, ela não podia salvá-lo. O menino continuava preso de costas no chão. Então, outro homem ajoelhou-se, debruçou-se sobre o rosto de Logocho e agarrou uma fina lima de metal. Ele abriu com força o maxilar do menino e introduziu a lâmina entre os dois dentes inferiores da frente. Empurrou-a até a gengiva e aí, com uma torção do ombro, girou a lima. Crack! Um dos incisivos se rompeu, inundando de sangue a boca de Logocho. Em seguida, o especialista reposicionou a lâmina e - crack! - esfacelou o outro dente incisivo.

Agora sim Logocho parecia um murle.

Poucos meses depois, o caos desabaria tanto sobre Logocho como sobre a sua terra natal. Um bruxo da aldeia disse que algo terrível iria ocorrer com a sua família. E em toda a região uma fúria acumulada por gerações iria eclodir em 1983, desencadeando um conflito horrendo e invisível para o resto do mundo. Durante as duas décadas seguintes, mais de 4 milhões de pessoas seriam forçadas a abandonar suas aldeias e buscar refúgio no mato, nas cidades do norte e nos países vizinhos. Outros 2 milhões iriam perecer.
A vida de Logocho - fugindo, se escondendo, combatendo, buscando um sentido - iria refletir o que se passava em todo o sul do Sudão.

A causa das tensões no Sudão é de natureza tão geográfica que poderia ser notada até mesmo por um observador na Lua. A ampla faixa cor de marfim do Saara no norte da África contrapõe-se à savana e à selva verdejante no minguante centro do continente. As populações em geral se distribuem de um lado ou de outro desse divisor vegetal. E dependendo do lado, ao norte ou ao sul, define-se a cultura - religião, música, indumentária, língua - das pessoas que lá vivem.

No Sudão, o contato entre árabes e negros sempre foi problemático. Já no século 7, os conquistadores muçulmanos descobriram que muitos dos moradores da terra então conhecida como Núbia eram cristãos. O confronto entre ambos consolidou-se em um impasse que durou mais de um milênio, até que o governador otomano no Cairo invadiu a região, explorando o território ao sul do Egito como uma fonte de marfim e escravos. Em 1820, 30 mil pessoas foram transformadas em cativos pelos otomanos, que as denominavam sudan (negros, em árabe).

A aversão global à escravidão acabou com o negócio dos traficantes. Os otomanos se retiraram na década de 1880 e, em 1899, após um breve período de independência, os britânicos assumiram o país, governando suas duas metades como regiões distintas. Como não podiam controlar militarmente todo o território - dez vezes maior que o do Reino Unido -, os ingleses se instalaram em Cartum e conferiram poderes limitados aos chefes tribais nas províncias. Ao mesmo tempo, estimularam a adoção do islamismo e da língua árabe no norte, e do cristianismo e da língua inglesa no sul. Mas concentraram seus esforços no norte, deixando o sul à própria sorte. A questão que se coloca é: por que essa insistência em um Sudão unificado?

Um dos motivos, mais uma vez, é geográfico. Como o Nilo segue para o norte rumo ao Egito, ele acaba vinculando diferentes culturas em suas margens, de maneira intermitente e, por vezes, rancorosa. O rio influencia o comércio, o ambiente e a política, entrelaçando os interesses de ambas as regiões. Enquanto estavam no país, os britânicos precisavam manter o controle do canal de Suez na foz do Nilo, pois era a via de acesso dos britânicos à Índia, a "joia da coroa". E isso implicava manter o controle sobre todo o rio.

Quando os britânicos se retiraram em meados da década de 1950, não admira que a região fosse engolfada pela guerra civil. Os rebeldes sulistas combateram as tropas do governo central durante os anos 1960, e 500 mil pessoas perderam a vida antes que os dois lados interrompessem as hostilidades em 1972. O cessar-fogo serviu apenas para que os beligerantes se recompusessem para um conflito ainda mais sanguinolento.

No intervalo entre as duas guerras civis, o governo em Cartum associou-se ao Egito para a realização de um projeto de grande escala no sul. Na imensa planície onde o Nilo atravessa o Sudão do Sul, ele forma o Sudd, uma das maiores áreas de terras úmidas em toda a África. E onde as cheias anuais do rio renovavam as pastagens era o local em que desde sempre as tribos meridionais criavam seu gado. O projeto dos dois governos era abrir um canal de 360 quilômetros que desviaria do Sudd as águas do Nilo, a fim de que seguissem para o norte até o árido Egito. À região, foi assim levado um equipamento de escavação enorme, tão grande quanto um prédio de oito andares, que começou a rasgar os pastos sob o olhar impotente das tribos locais.
Com a eclosão da segunda guerra civil, em 1983, surgiu um grupo rebelde intitulado Exército de Libertação do Povo do Sudão (SPLA, na sigla em inglês), que, em um de seus primeiros atos espetaculares, lançou um ataque contra a sede da construtora do canal Jonglei, interrompendo o projeto. Anos de carnificina se seguiram e somente seriam encerrados em 2005, quando esforços diplomáticos nos bastidores levaram à assinatura do chamado Acordo de Paz Global. Esse pacto assegurou ao sul do Sudão uma autonomia relativa, com Constituição (baseada na distinção entre religião e Estado), Exército e moeda próprios. Em janeiro deste ano, a história sudanesa deu um passo determinante: a população sulista aprovou em referendo a decisão de separar-se do norte e formar uma nação livre, por hora chamada de Sudão do Sul.

As lideranças políticas de ambos os lados estão emitindo sinais de que pretendem respeitar o resultado, temerosos de uma intervenção internacional. Ao mesmo tempo, continuam o antagonismo e a troca de acusações. Essa duplicidade torna-se evidente quando meia dúzia de homens vestidos de terno me abordam no aeroporto de Juba, a capital da região sul. Eles me enfiam em um caminhão com soldados e me levam a um quartel. Ali se apoderam de meu celular e minha câmera, e me impedem de tomar água ou ir ao banheiro durante o dia e meio em que sou interrogado. Também se negam a avisar o consulado americano. Depois fico sabendo que eram agentes do serviço de inteligência do sul do Sudão.

O episódio me deixa perplexo, porque esse tipo de comportamento destoa da cordialidade com que os sudaneses sulistas acolhem os ocidentais. Quando me libertam, um oficial explica: o serviço de inteligência achou que eu era um espião. Mais tarde descobri que um motorista que tentara me extorquir acabou me delatando como um espião, mas o incidente mostra quão arraigada é a desconfiança entre nortistas e sulistas.

A questão é: por que o norte não aceita a separação do sul? De novo, o motivo é geográfico: petróleo. A maior parte das reservas fica no futuro Sudão do Sul, mas o governo central controla as refinarias, assim como a distribuição das receitas.

De certo modo, Logocho decepcionou o pai quando ainda estava no ventre de sua mãe. Anos atrás, a mãe tivera gêmeos, mas um deles havia morrido antes do nascimento de Logocho. Portanto, de acordo com as tradições murle, o recém-chegado tomou o lugar do irmão falecido, ao lado do gêmeo sobrevivente. E este era mais forte e mais ágil. E amava as vacas. E acompanhava o pai em suas jornadas durante a estação seca, em vez de ficar na aldeia com as mulheres.

Quando Logocho estava com 9 anos, o pai o chamou. Ameaçou deserdá-lo de seu direito de nascença - o rebanho de vacas. Com isso, Logocho não teria um dote. Uma irmã morreu de malária. Outra, de disenteria. Uma epidemia dizimou o rebanho - a catástrofe prevista pelo bruxo, lembraram os vizinhos. E aí o pai morreu. Sem rebanho e sem marido, a mãe de Logocho mergulhou no desespero. Como iria dar de comer aos filhos? Ela então arranjou para que Logocho fosse morar com um tio, que vivia a quilômetros de distância e ficou intrigado com aquela criança estranha que lhe coubera cuidar. O tio se enfurecia, e Logocho morria de medo dele.

Então aconteceu algo extraordinário. A segunda guerra civil havia começado, e o SPLA conseguira interromper as atividades da grande escavadeira do canal. Certo dia, um combatente do SPLA apareceu na aldeia de Logocho pedindo comida, e o menino lhe deu carne. Outros soldados já haviam passado por ali, e Logocho notara medo na voz do tio quando este deu um boi para que eles matassem a fome. O poder que emanava do soldado - da identidade no uniforme, do propósito explícito em sua arma - ficou gravado a fogo no espírito de Logocho, que teve uma ideia.
Um dia, quando o tio levou Logocho, então com 12 anos, para ajudá-lo a cuidar dos animais, ele e cinco amigos se desgarraram do grupo com a desculpa de que tinham avistado um búfalo morto e iam esfolá-lo. Fugiram todos pelo mato e continuaram até se juntarem a um grupo de quatro soldados que estavam caçando. Duas semanas depois chegaram a um acampamento do SPLA perto de Boma. Um punhado de rebeldes adultos vivia no acampamento, todos esfomeados e aguardando ordens superiores. Durante um mês o grupo sobreviveu da caça, até que chegaram as instruções do comando do SPLA: todos deveriam ir para a Etiópia. A pé.

Nessa mesma época, em meados de 1986, o americano Roger Winter voou até a Etiópia para se encontrar com John Garang, o carismático líder do SPLA. Com 40 e poucos anos, Winter havia passado a vida lidando com gente em condições terríveis. Dirigia uma organização não governamental que atuava em países em via de desintegração, como Ruanda, Etiópia e Sudão.

Winter apreciava Garang, um homem complexo, com um sorriso luminoso e um doutorado pela Universidade Estadual de Iowa, onde estudara economia. Garang era versado tanto em Marx como na Bíblia. Suas tropas incluíam crianças, mas havia elaborado uma concepção de um "Sudão Novo" unificado, com as regiões norte e sul convivendo em paz. E agora ele queria saber: os Estados Unidos iriam ajudar o povo sulista do Sudão? Winter se considerava militante dos direitos humanos com a missão de anunciar ao mundo a catástrofe que se desenhava. (Mais tarde, ele alertou sobre o genocídio iminente em Ruanda.) O que viu no Sudão o deixou chocado.

Enquanto isso, no acampamento da SPLA, Logocho e os outros recrutas formaram uma fila e partiram rumo à Etiópia. Os meninos dependiam naquele momento dos soldados para obter alimento e água. Outros se juntaram ao grupo pelo caminho, e logo as fileiras incluíam mais de uma centena de jovens. No início da marcha, quando a fome apertou, o grupo matou quatro hipopótamos. Várias refeições da carne deram um nó no intestino de Logocho. Foi um suplício que se prolongou por horas intermináveis, torcendo-lhe o ventre e fazendo o seu corpo perder muita água. Ele se lembrou da irmã que morrera de disenteria. Prostrado no chão, sob o sol escaldante, ele apenas pensava: vou morrer aqui.

Foi então que um jovem chamado Jowang, parente dele, o viu e foi buscar água. Depois de matar a sede, Logocho conseguiu se levantar e voltou a caminhar, agarrando-se à expectativa do futuro incerto que o esperava na Etiópia.

No fim de outro dia, um dos soldados avisou a coluna: estavam prestes a cruzar um grande trecho de floresta aonde não haveria água. Só iriam voltar a beber do outro lado, e por isso teriam de caminhar à noite, com a temperatura mais amena. Eles se embrenharam no mato quando começou a escurecer. Quando rompeu o dia, estavam saindo da floresta, exaustos com a caminhada e a ameaça dos elefantes. Por fim mataram a sede em um rio refestelado de crocodilos.

"Você é muito pequeno e precisa ficar mais tempo aqui", disseram os soldados quando Logocho chegou à Etiópia, exaurido pela marcha de 12 dias. Havia gente de todo o sul do Sudão nesse acampamento perto de Gambela. Era um campo de refugiados, mas o SPLA o usava como uma espécie de reserva de recrutas, separando meninos e homens de acordo com a idade e a força.
Mais tarde, ao visitar esses campos de refugiados na Etiópia, Roger Winter ficou de coração partido. Os meninos tinham pernas finas como palitos, alguns com dentes projetados em rostos chupados, outros com olhos esbugalhados, todos cegos de fome e doenças. Muitos estavam malnutridos porque o governo central de Cartum havia aprendido a usar a comida como arma. No princípio, os moradores das aldeias em toda a região sul se juntavam em áreas abertas quando ouviam os aviões se aproximando, pois estes sempre arremessavam fardos com alimentos. Logo em seguida, porém, os aviões do governo passaram a lançar bombas em vez de comida, com um efeito duplo e devastador: bastavam poucas bombas para dizimar uma multidão, e as pessoas passaram a temer os alimentos vindos do céu. Acabavam morrendo de fome em suas choças.

Uma política igualmente desumana na região de Darfur levaria o Tribunal Penal Internacional de Haia, a expedir em março de 2009 uma ordem de prisão do presidente do Sudão, Omar al-Bashir, por crimes contra a humanidade. Em julho de 2010, outra ordem de prisão foi emitida, após ele ter sido acusado de genocídio.

A vontade de Logocho era se juntar às unidades de combate, mas nem sequer conseguia segurar um fuzil AK-47 por tempo suficiente para mirar um alvo. Assim, durante seis meses, no campo de treinamento de Bonga, foi desenvolvendo outras habilidades táticas, desde se arrastar pelo chão sob fogo inimigo até não revelar nada importante caso fosse interrogado. Quando o próprio John Garang apareceu por lá, fez um discurso emocionante diante dos recrutas, distribuiu uniformes e os dividiu em dois grupos. Os rapazes e os adultos estavam prontos para a luta, ao passo que Logocho e outros meninos menores iriam frequentar a escola no campo de Dima e ficar de prontidão para uma convocação.

Ao completar 15 anos, Logocho afinal reuniu condições para usar um fuzil. Ao longo dos anos seguintes, combateu nas forças rebeldes e não se furtou a disparar sua arma, mas jamais conseguiu alvejar outro ser humano. Quando os seus companheiros topavam com árabes feridos após uma escaramuça, não hesitavam nem se incomodavam em matá-los. Para Logocho, porém, isso era impossível. A guerra não lhe era familiar.

As tropas do governo central contavam com equipamentos e armas muito superiores, e usavam aviões a jato para bombardear os tanques de combustível e os soldados sulistas. Por isso, o SPLA foi obrigado a adotar táticas de guerrilha no mato. Toda vez que o destacamento de Logocho avançava por um território novo, cada soldado cavava uma trincheira rasa individual. Os imensos aviões Antonov, de fabricação soviética, chegavam com um zumbido característico, e depois vinha o assobio das bombas que caíam. Em mais de uma vez, Logocho enterrou o rosto no chão, arfando na terra revolvida, enquanto seus amigos agonizavam ao lado.

Um desses amigos havia lhe mostrado uma Bíblia. Uma das histórias que leu parecia apropriada à situação. "Pobre", dizia Isaías da terra hoje conhecida como Sudão. "Pobre da terra dos grilos alados, que fica além dos rios da Etiópia".

Roger Winter tinha consciência de que cruzara um limiar. É verdade, outros militantes dos direitos humanos haviam ido ainda mais longe - um ex-padre irlandês se engajara por inteiro na luta, chegando a fornecer armas para os rebeldes -, mas o fato é que os líderes do Sudão do Sul passaram a contar cada vez mais com a orientação e a inspiração de Winter. Em 1994, os responsáveis pela ala política do SPLA, o Movimento pela Libertação do Povo do Sudão (SPLM, na sigla em inglês), realizaram sua primeira convenção nacional, no meio da selva perto da fronteira com Uganda. As autoridades em Cartum ficaram sabendo do encontro e mobilizaram a aviação par Desde muito os líderes sulistas haviam abandonado os vilarejos e as estradas - alvos fáceis - e se enfurnado na floresta. Homens como Garang e seu lugar-tenente, Salva Kiir, tinham crescido em acampamentos de pastores e sentiam-se à vontade em áreas rurais remotas. Vindas de todo o Sudão, mais de 500 pessoas participavam da convenção, e os soldados do SPLA circulavam por entre a relva alta em torno do local, apagando os sinais da passagem humana de modo a impedir sua localização pelos bombardeiros. Os organizadores do encontro entalharam degraus nas encostas, e ali as pessoas podiam se acomodar em um anfiteatro camuflado pela natureza e ouvir o que Winter tinha a dizer sobre a democracia. Depois dessa primeira e acidentada convenção política, o SPLM formou um governo próprio, tendo à frente Garang.

Em janeiro de 2010 me encontrei com Salva Kiir, que se tornou presidente da região sul após a morte de Garang, em 2005, em um acidente de helicóptero. Ele ainda parecia pouco confortável no gabinete presidencial, rodeado pelo resplendor do poder usual na África central. Usava um chapéu preto de caubói, que ganhara do presidente George W. Bush, e se esparramava desajeitado em um sofá pomposo como se este fosse pequeno demais. Em sentido figurado, também parecia pouco à vontade em seu cargo político. Jamais imaginara ter de assumir a Presidência, contou, e seus planos para o Sudão do Sul supunham a transferência do cargo para outra pessoa. "Uma transmissão pacífica do poder", comentou, "pois isso é o fundamento de uma boa democracia." Ele se mostrou bem mais animado quando lhe perguntei de sua infância entre as vacas, dormindo ao lado delas e mamando em suas tetas. "Isso é que era bom", disse, abrindo um sorriso. E ainda tem seus rebanhos? "Um homem nunca diz quantos filhos ou vacas tem", respondeu. "Às vezes ele diz que tem só um. Mas isso pode significar dez ou 100 ou mil." Bem, então, quantas tem? Ele riu. "Uma."

Nos anos seguintes à convenção na selva, Winter não deixou de lado sua preocupação, empenhando-se em explicar o Sudão aos americanos e os Estados Unidos aos sudaneses. Na manhã de 11 de setembro de 2001, ele estava participando de uma reunião em Washington, DC, sobre um possível cessar-fogo nos montes Nuba. Durante o encontro chegou a notícia do atentado terrorista em Nova York, e ordens para que os edifícios federais fossem evacuados. "Nem morto saio daqui", lembra-se Winter de ter pensado. "Estamos tão próximos de uma solução!" Ele havia planejado seguir dali para a embaixada do Sudão, mas, como era impossível chegar lá por causa do congestionamento na cidade, acabou passando o dia em negociações pelo telefone.

Nos primórdios da guerra civil, os únicos americanos que olhavam de perto os acontecimentos no Sudão eram missionários cristãos. Para eles, o conflito era de natureza religiosa - entre agressores islâmicos e vítimas não muçulmanas. O terror do 11 de Setembro só reforçou tal opinião. Por outro lado, Winter tinha plena consciência de que a guerra civil sudanesa não era simplesmente um confronto religioso - em muitas de suas partes, o Sudão do Sul é um mosaico de tribos animistas que nada conhecem do cristianismo. Ele sabia que a lealdade étnica contava muito mais que a filiação religiosa. Sabia o que estava em jogo no plano econômico, o quanto o governo central sufocara o desenvolvimento do sul.

Nas regiões em que árabes e negros haviam, ao longo da história, disputado terras de pastagem, agora eles lutavam pelo petróleo - reservas de até 3 bilhões de barris em uma zona fronteiriça reivindicada por nortistas e sulistas, há tempos uma área de confronto entre tribos e clãs. Era um conflito complexo, mas Winter jamais desconsiderou a força positiva da religião. Afinal, havia constatado isso em primeira mão já em 2002.

Em um vilarejo sulista chamado Itti, junto à divisa com a Etiópia, ele conhecera uma igreja presbiteriana onde todos os domingos mais de 300 pessoas se reuniam sob um telhado de palha e tocavam tambores de pele de animais. Num domingo, o jovem pastor, um homem chamado Simon, dirigiu-se aos fiéis e falou sobre a "paz de Deus, que excede toda a compreensão", citando o apóstolo Paulo. Paz até mesmo com os árabes. Eis a sabedoria em pessoa, pensou Winter.

Depois do culto, ele perguntou a um grupo de presbíteros o que poderia fazer para ajudar a congregação. Os líderes podiam pedir qualquer coisa. Um prédio para os cultos. Instrumentos musicais. Remédios. Dinheiro. "Nosso pastor é um homem inteligente", disseram afinal. "Mas nunca teve ocasião de se formar adequadamente como pastor. Você poderia ajudá-lo?"a bombardear o local.
Winter ficou estupefato. Essa gente mal tem o que comer, e escolhe mandar alguém para a escola? Nos anos seguintes ele pagou do próprio bolso para que Simon pudesse frequentar a escola de teologia em Kampala, Uganda, confiando na palavra do jovem de que voltaria para a relativa desolação da minúscula Itti.

Lendo a Bíblia do amigo em um alojamento do SPLA certa noite de 1991, Logocho teve um estalo. É isso, pensou. Aí está o meu caminho. Decidiu então se tornar pastor. Pouco depois, um ministro protestante o batizou e lhe perguntou se gostaria de adotar um novo nome, uma nova identidade. "Quero sim", disse Logocho. "Simon."

Então, de nome novo, devolveu o fuzil, abandonou o SPLA e passou a frequentar uma escola para refugiados no Quênia, onde aperfeiçoou seus conhecimentos de inglês. Em seguida, foi para uma escola bíblica e depois aceitou um posto em uma remota igreja em Itti, que um domingo seria visitada por um americano calvo chamado Roger, que se sentou no chão de terra da igreja ao lado dos outros fiéis. E o jovem pastor fez um sermão singelo que tocou o coração de um dos principais arquitetos daquela que se tornaria a mais nova democracia africana.

Os anos dedicados por Winter a entendimentos diplomáticos culminaram no acordo de paz de 2005. A carnificina da história sudanesa torna difícil assegurar que o tratado será mantido até a criação oficial, no dia 9 de julho, do mais novo país africano. No entanto, Winter - ao lado de negociadores de Quênia, Grã-Bretanha e outros países - já conseguiu algo que há pouco tempo parecia impossível: um projeto de paz.

Recentemente, passei um tempo com Simon em Itti, onde ele não tem o menor prestígio social, uma vez que não é dono de rebanho; além disso, parece deslocado com seus óculos escuros e sapatos ocidentais. Nos três anos anteriores, ele sobrevivera realizando trabalhos comunitários para a Wildlife Conservation Society - uma atividade muito diversa, em certo sentido, dos acampamentos pastoris e grupos de caça de seus pares. Ainda assim os moradores locais o cumprimentam e prometem revê-lo no domingo pela manhã. "E aí, chefia?", dizem. "Claro que não sou chefe de nada", comenta, rindo.

Simon poderia ter ficado em Uganda ou ido para o Quênia. Poderia ter emigrado para os Estados Unidos, onde estaria vivendo com conforto. Por que não ir para lá? Ele sorri. "Não", diz.

Quando criança, Logocho havia deixado para trás as tradições pastoris. Cresceu em meio ao caos da guerra, e depois, quando se tornou Simon, sua fé comoveu um influente americano que ofereceu apoio, a ele e a seu país. Sua história pessoal está entrelaçada à do Sudão do Sul, e tudo o que quer é ajudar seu povo. "Não", diz Logocho. "Este é meu lugar."

Belo Monte - A terceira maior hidrelétrica do mundo



Por muitas décadas se acreditou que hidrelétricas são fontes de energia limpa, mas hoje se sabe que tanto o impacto ambiental gerado a partir da inundação que liquida espécies e interfere diretamente no ecossistema, quanto o gás metano gerado a partir da decomposição da vegetação que fica submersa, fazem com que as hidrelétricas não sejam tão viáveis para a sustentabilidade do planeta.
Ainda assim, o governo atual, conseguiu tirar do papel um projeto que vem desde os primórdios da ditadura e pretende construir a terceira maior hidrelétrica do mundo na região do oeste do Pará, próximo a cidade de Altamira, no rio Xingu.
 Para que as obras se iniciam, o governo só precisa da licença ambiental emitida pelo Ibama. E o que se sabe até agora é que os conflitos gerados a partir de uma obra desse porte fizeram com que dois técnicos pedissem a demissão alegando pressão do governo. Estruturada dessa maneira, acredita-se que a licença sairá em fevereiro deste mesmo ano. (Alguma dúvida?)
Acredita-se que o investimento inicial seja de R$ 20 bilhões, mas como sabemos o valor tende a ser bem maior. O reservatório da Usina tomará uma área que condiz com o tamanho das cidades de Recife e Fortaleza juntas. A obra será maior que a do Canal do Panamá e para ser concluida estima-se que necessite de 10 anos.
O local, como não seria diferente, inlui áreas de preservação ambiental e indíginas. Várias pessoas precisarão ser desalojadas e outras tantas migrarão para as proximidades interessadas nos tantos empregos diretos e indiretos que uma obra desse porte deve gerar, o que definitivamente pode se transformar num caos sócioambiental.
 A capacidade de geração de Belo Monte anunciada pelo governo é de 11.233 MV, o que a coloca realmente em terceiro lugar, mas a verdade é que essa geração é a máxima e isso não ocorrerá durante o ano inteiro. Em épocas de seca (ou seja, na metade do ano) a geração de energia cai para 4.700 MW. A Eletrobrás garante que a geração de energia de um semestre garantirá o abastecimento anual e que a usina pode ficar parada o restante do ano por que já terá cumprido sua missão. (Uma obra deste tamanho que funcionará exatamente como os modelos públicos brasileiro: muito dinheiro e pouco trabalho)
Segundo o governo a função da hidrelétrica é dar segurança energética ao Brasil e os próximos capítulos envolvem uma briga de gigantes no leilão que definirá a empresa responsável pela construção e operação da usina. (mais uma vez quem pagar mais, leva)

Outros pontos de vista:

 “A região da Volta Grande do Xingu ficará praticamente seca com a construção da usina. A exemplo do que aconteceu com a cachoeira de Sete Quedas na construção da usina de Itaipu, também Belo Monte destruirá ou modificará cem quilômetros de uma sucessão de cachoeiras, corredeiras, canais naturais, e, além do enorme, trágico, irresponsável e irreversível desastre ambiental, a população que ficará na região não terá água suficiente para suas necessidades.”, afirma Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu, sobre a construção da obra. “Nós nunca impedimos o desenvolvimento sustentável do homem branco, mas não aceitamos que o governo toma uma decisão de tamanha irresponsabilidade e que trará conseqüências irreversíveis para esta região e nosso povos, desrespeitando profundamente os habitantes ancestrais deste rio e o modelo de desenvolvimento que defendemos” ( trecho da Carta dos povos indígenas ao presidente Lula contra a construção da Usina Hidrelétrica Belo Monte.)

Mais uma frase infeliz de um ministro: “Estamos quase mendigando para o Meio Ambiente liberar a autorização para a construção da terceira maior hidrelétrica do mundo”, disse o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, na cerimônia de posse de diretores da Aneel, no último dia 23. O governo esperava ainda para 2009 a liberação da licença e chegou a marcar o leilão para o dia 21 de dezembro de 2009, antes da concessão da licença prévia.

Copenhague - Parte II


A segunda parte do programa "Plano MTV Copenhague" discute como cada um de nós pode contribuir para a redução do aquecimento global, independente do resultado da COP15 – 15ª Conferência das Partes, a partir de mudanças de atitude no nosso dia-a-dia. Assista a primeira parte do programa, que explica um pouco mais sobre as intenções e a importância desse encontro que aconteceu em dezembro de 2009, em Copenhague.

Copenhague - Parte I


Em dezembro de 2009, em Copenhague, líderes mundiais se reuniram para discutir o clima durante a 15ª Conferência das Partes. A intenção do encontro era instituir metas de redução das emissões de gases poluentes e, assim, combater o aquecimento global no planeta. Você sabe como tudo isso impacta em sua vida e o que pode fazer para ajudar? Descubra na primeira parte do programa Copenhague", a partir de depoimentos de economistas, líderes comunitários e várias outras pessoas que, de alguma forma, estão ligadas ao assunto.


Veja a segunda parte do programa.

Tecnologias Verdes - Parte II


A segunda parte do programa Tecnologias Verdes mostra como é importante o envolvimento de toda a sociedade – e não só dos governos – na busca pela implantação de uma economia de baixo carbono no Brasil. Os especialistas reforçam a importância do envolvimento das universidades, através de centros voltados para o desenvolvimento de tecnologias limpas, e discutem outras questões relacionadas ao assunto como reciclagem, pré-sal e, até mesmo, mercado musical.


Assista a primeira parte do programa.

Tecnologias Verdes - Parte I


A primeira parte do programa sobre tecnologias verdes mostra ao telespectador como as novas tecnologias podem ser fortes aliadas na construção de um planeta mais sustentável e explica, ainda, porque o mundo passou a se interessar mais por esse assunto nos últimos anos. Para os participantes, a economia começou a mostrar sinais de preocupação com o meio ambiente apenas quando os grandes empresários perceberam que a natureza havia chegado no seu limite. Nesse novo cenário, especialistas acreditam que o Brasil leva vantagem sobre os outros países, principalmente no setor de energias renováveis. 


Veja a segunda parte do programa.

Vozes do Clima


O tema das mudanças climáticas, seus possíveis impactos sobre o Brasil e o que pode ser feito para enfrentar o maior desafio do século.

Carta da Terra: começa com você



Transformar o mundo em um lugar melhor para se viver, segundo os princípios da Carta da Terra, é uma missão de todos. Esta é a mensagem da campanha deste ano - "Começa Com Você" -, em que o texto completa dez anos.
Com a participação de 120 crianças da ONG Casa do Zezinho, que seguram nas mãos uma folha em branco, onde é projetada a animação de um planeta mais sustentável, a ação desenvolveu este vídeo para chamar a atenção do público para o fato de que as mudanças que queremos ver no mundo estão nas mãos de cada habitante do planeta.
Desenvolvida pela Carta da Terra Brasil - extensão brasileira do movimento internacional The Earth Charter -, a campanha foi criada em homenagem ao aniversário de 10 anos da Carta da Terra e será veiculada internacionalmente.

Como surgiu o Greenpeace?


O grupo ambientalista mais famoso do mundo completa 40 anos. Teve início em 15 de setembro de 1971, quando 12 pessoas, entre jornalistas e defensores da natureza, saíram de Vancouver, no Canadá, para as ilhas Aleutas, à oeste do Alasca
A bordo do barco de pesca Phyllis Cormack, pretendiam protestar contra os testes nucleares dos EUA na região. Com o mundo em plena Guerra do Vietnã, o protesto causou comoção. O grupo não chegou ao destino: foi preso pela guarda costeira americana em 20 de outubro e enviado de volta a Vancouver.
A viagem, porém, não foi em vão: o Greenpeace virou manchete de jornais e a fama fez com que outro teste nuclear previsto fosse adiado - ele aconteceu, mas foi o último nas ilhas Aleutas. Hoje a organização não-governamental com sede em Amsterdã, Holanda, está presente em 42 países, incluindo o Brasil.

NOME FÁCIL
O barco tinha uma bandeira com as palavras "green" e "peace". Isoladas, não cabiam no bottom vendido para arrecadar fundos para a viagem. Por isso acabaram sendo grudadas, dando nome à ONG

DO CONTRA
Patrick Moore, um dos fundadores do Greenpeace, hoje critica os preceitos da ONG e defende muitas coisas que ela combate, como energia nuclear, alimentos transgênicos e a criação de peixes em cativeiro

• A Sea Shepherd, que luta para preservar espécies marinhas colocando até bombas em barcos, foi fundada por um membro expulso do Greenpeace, Paul Watson

Desmatamento no Cerrado cai 16%




O MMA – Ministério do Meio Ambiente divulgou na terça-feira, 13/09/2011, em comemoração a Semana Nacional do Cerrado, dados que revelam que a taxa de desmatamento no bioma diminuiu 16% entre junho de 2009 e julho de 2010.

Segundo informações divulgadas pelo governo, com base em estudos do Ibama, a perda de vegetação nativa por desmatamento no Cerrado foi de 6,2 mil km² em 2009-2010, contra 7,4 mil km² em 2008-2009. Se comparado aos índices de 2002 – quando o acompanhamento da região começou a ser feito, por meio de imagens de satélite –, a queda do desmatamento foi ainda maior: cerca de 40%.

Apesar da boa notícia, o Cerrado continua sendo um dos biomas mais ameaçados do país e, atualmente, possui apenas metade de sua cobertura original. Para aumentar a proteção na região, a ministra Izabella Teixeira aproveitou a ocasião para anunciar a implantação de sistemas de monitoramento mais avançados no bioma, nos moldes dos usados pelo Inpe – Instituto de Pesquisas Espaciais na Amazônia.

A medida ajudará a obter dados mais detalhados a respeito do desmatamento no Cerrado e, ainda, identificar com maior precisão os motivos da prática ilegal no bioma – como atividades agropecuárias, produção de carvão e crescimento urbano desordenado.

MARANHÃO EM FOCO
Ainda segundo a ministra, as medidas de fiscalização contra o desmatamento ilegal no Cerrado serão concentradas no Maranhão. Isso porque sete dos 20 municípios campeões de desmatamento no bioma, entre 2009 e 2010, estão localizados no Estado, que perdeu mais de mil km² de vegetação nativa por causa da prática ilegal.

Juntamente com o Piauí, que apareceu em segundo lugar no ranking dos Estados que mais desmataram o Cerrado no último ano, o Maranhão perdeu o equivalente a 25 mil campos de futebol em vegetação nativa.

O banho quente de cada dia As opções para quem deseja aquecimento barato e sustentável


Escolher a melhor maneira de aquecer a água para uma ducha relaxante exige critério, pois as regiões brasileiras têm climas peculiares e as necessidades de aquecimento diferem entre elas. Um aquecedor eficiente no Sul do país, por exemplo, provavelmente será superdimensionado para uma moradia no Nordeste. E, mesmo com tais variações, atualmente os sistemas de aquecimento instantâneo (chuveiro elétrico e aquecedor a gás, de passagem) são os mais utilizados no país.

Esse último, por motivo de segurança, deve ficar em local ventilado (geralmente na área de serviço). Isso gera algum desperdício, porque o registro permanece aberto entre um e dois minutos até que a água quente chegue ao banheiro. O chuveiro elétrico, por sua vez, aquece imediatamente o banho. No entanto, gasta a energia gerada de recursos hídricos – basta lembrar que a maior parte da eletricidade produzida no Brasil vem de usinas hidrelétricas. O que funciona melhor para o meio ambiente?

Até agora não existe uma resposta fácil, mas sim grandes discussões sobre o tema. Polêmicas à parte, é importante considerar que cada equipamento permite uma vazão (quantidade de água que passa pelo aparelho e sai pela ducha) diferente e que a decisão sobre esse consumo cabe ao usuário – que pode abreviar os banhos, coletar e usar a água que sai ainda fria da ducha ou adotar redutores de vazão ou modelos de chuveiro que potencializam a força do jato, simulando maior pressão.

Uma comparação adequada entre esses dois sistemas leva em conta as diferenças não somente de consumo como também os gastos com equipamento, instalação elétrica e hidráulica, desfazendo a impressão de que a opção pelo gás é muito mais cara (ao menos quando se trata dos preços mínimos). Confira na tabela abaixo as simulações para uma casa com dois banheiros e quatro moradores que tomam banhos de 15 minutos na potência máxima.



Produção de energia eólica vai aumentar sete vezes



A energia eólica entrou definitivamente na matriz energética brasileira e deve crescer sete vezes em volume nos próximos três anos, saindo dos atuais 1.114 megawatts (MW) para 7.098 MW em 2014. A informação foi divulgada ontem (31) pelo presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, durante a abertura do encontro Brazil Windpower, que prossegue até sexta-feira (2), reunindo técnicos, agentes públicos e empresários do setor.
"O mundo todo está olhando para a questão da energia eólica no Brasil. Nós já temos um gigawatt (GW) instalado e vamos multiplicar por sete, que já estão contratados [em leilões] até 2014. É um crescimento bastante expressivo", disse Tolmasquim.
O presidente da EPE apresentou números que mostram a força do setor no Brasil, principalmente a partir de 2005, ano que marca a escalada do crescimento da produção eólica e a diminuição no preço do MW, que caiu de R$ 300 na época para R$ 99,50 no último leilão este ano.
A expansão vem atraindo grandes empresas estrangeiras. Atualmente, quatro grupos dividem o mercado, mas a previsão é que mais seis indústrias se instalem e comecem a produzir aqui os equipamentos até 2014. Ainda assim, segundo Tolmasquim, o Brasil ocupa apenas o 21º lugar no ranking dos países produtores de energia eólica, que tem a China em primeiro, seguida pelos Estados Unidos, a Alemanha e Espanha.
Para o secretário de Planejamento Energético do Ministério de Minas e Energia, Altino Ventura, o sucesso da energia dos ventos explica-se por vários fatores. "A tecnologia evoluiu. As torres hoje são muito mais elevadas, saindo de 50 metros de altura no passado para até 120 metros de altura atualmente. A capacidade unitária dos geradores também aumentou e provocou uma redução de custos.
A economia de escala, pelo fato de haver demanda para a energia eólica, também favoreceu essa competitividade. O Brasil tem hoje vários fabricantes operando em seu território, além de outros que vão se instalar aqui para atender não só o nosso mercado, mas também os clientes do exterior", disse.
O presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Ricardo Simões, previu que o desenvolvimento do setor vai gerar um grande volume de investimentos nos próximos anos. Atualmente o país conta com 57 parques eólicos em produção e tem 30 em construção.
"Isto significa um investimento de R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões, e o setor eólico deve chegar em 2014 faturando mais de R$ 3 bilhões por ano. Estamos em um processo de consolidação dessa indústria, com aumento de escala e ganho de competitividade. É um ciclo virtuoso, de uma energia limpa, renovável e sem emissão de gás do efeito estufa", disse Simões.
Segundo ele, há condições para o Brasil chegar nos próximos dez anos a 20 GW de produção de energia eólica. O volume equivale a uma vez e meia a capacidade total de produção da maior hidrelétrica do país, a Usina de Itaipu.

Os bônus para renováveis nos 5 maiores produtores



Um estudo elaborado pela consultoria americana KPMG comparou as políticas de incentivo para produção de energia renovável em 15 países no mundo. O objetivo foi levantar detalhes sobre os tipos de incentivos implantados em cada um dos países pesquisados.
A seguir, você confere as opções de estímulo adotadas nos 5 maiores produtores de energia renovável, que ao contribuírem para uma matriz energética mais limpa, ajudam a reduzir as emissões de gases efeito estufa. São eles: China, Estados Unidos, Alemanha, Espanha e Brasil.
Foram avaliados mecanismos de estímulo à produção de energia limpa, como o Feed-in tariff, subsídios de capital e descontos, redução de impostos ou taxas sobre a comercialização de energia; investimento público, empréstimos e financiamentos, entre outras medidas.

CHINA
Líder número um nos setores do mercado de energias renováveis, a China produziu, em 2009, 40% dos equipamentos de energia solar fotovoltaica do mundo (PV) de abastecimento, 30 % das turbinas de vento e 77% dos coletores de energia solar para aquecimento de água. Naquele mesmo ano, o gigante asiático adicionou 37 GW de capacidade de energia renovável, mais que qualquer outro país no mundo, para chegar a 226 GW de capacidade renovável total.
O apoio do governo chinês para as energias renováveis inclui redução do imposto de renda corporativo, reduções significativas nos impostos incidentes sobre valor agregado, outros incentivos fiscais, tarifas feed-in (tarifas subsidiadas para renováveis) e os subsídios aos operadores de projetos de energia renovável para compensar os seus custos.

ESTADOS UNIDOS
Os EUA são o segundo maior produtor de energia gerada a partir de fontes renováveis, incluindo o etanol de milho, biomassa e geotérmica. Em 2009, o país perdia apenas para a China em capacidade de geração eólica, Para adições de energia eólica, os Estados Unidos estavam perdendo apenas para China em 2009, com 10 GW instalados naquele ano.
O apoio do governo para as energias renováveis inclui programas de subvenção, créditos fiscais para produção e investimentos. Além disso, o país introduziu um programa especial, o Renewable Portfolio Standards (RPS), que obriga empresas de geração e fornecimento elétrico a ter uma fração específica de sua energia vinda de fontes renováveis. Embora não haja uma legislação federal em vigor sobre o assunto, atualmente 29 estados americanos já adotam o programa de RPS.

ALEMANHA
Em 2009, a Alemanha foi o líder em investimento em capacidade nova de geração solar fotovoltaica, com a introdução de 3,8 GW - mais de metade do investimento do mercado global de eólica naquele ano. O país também liderou o processo de conexão dos sistemas solares fotovoltaicos às rede elétrica.
Além disso, tem implementado uma série de políticas de incentivo, como a Lei Aquecimento Renovável, que exige que pelo menos 20% da energia para sistemas de aquecimento de novos edifícios residenciais devem vir de fontes renováveis.
Tarifas feed-in estão disponíveis para energia eólica, solar, biomassa, geotérmica e para geração hidrelétrica. Os investimentos em energia limpa garante não só a redução das emissões de gases nocivos ao planeta como a geração de novos postos de trabalho. Na última década, cerca de 300 mil vagas foram criadas no agitado mercado de energias renováveis do país.

ESPANHA
Em 2009, a Espanha foi líder de novas instalações de sistemas de energia eólica no mercado europeu e, ao longo dos últimos anos, tem conduzido boa parte do crescimento nesta área. De março de 2009 a março de 2010, o país acrescentou 220 MW de novas centrais eólicas à uma matriz em operação de 231 MW.
Uma série de incentivos fiscais estão disponíveis para promover a sustentabilidade. Os bônus para renováveis incluem isenção de impostos e subsídios fiscais para exploração e projetos que empregam energia eólica e solar. De acordo com o Instituto para Diversificação da Energia (IDEA), em 2020, cerca de 42,3% do total da geração de eletricidade espanhola virá de fontes renováveis.

BRASIL
Brasil é considerado o quinto maior produtor em renováveis (incluindo hidrelétrica) e o sexto maior investidor do mundo. Segundo o relatório da KPMG, o país tem a vantagem de ser líder na geração de etanol de cana. Tem também mais de 4,8 GW de usinas de biomassa para cogeração de energia no processo de produção do açúcar. O estudo da KPMG identificou os seguintes estímulos ao setor de renováveis no país: subsídio de capital e concessão de descontos; investimentos públicos, empréstimos e financiamentos; e licitações públicas.
Além de possuir uma matriz energética fortemente baseada em geração hidroelétrica, o país adota diversos programas de utilização de combustíveis renováveis que vêm sendo desenvolvidos e se intensificando nos últimos três anos, destaca o relatório. Outro ponto alto é a aprovação recente pela Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI) de um projeto de lei federal (o PLS 311/09) que estabelece um regime especial de tributação para incentivar o desenvolvimento e produção de energia elétrica a partir de fontes alternativas (Reinfa). A lei, em tramitação no Senado Federal, prevê diversos benefícios fiscais como a isenção do PIS e do COFINS, e de impostos de importação e IPI para empresas que operam sob o regime.